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domingo, 25 de agosto de 2013

Uma tarde passada entre o chá e o jardim

Numa tarde, em que o céu estava azul e havia sol (coisa rara em Macau), deu-me uma enorme vontade de estar em liberdade, ou seja, não me apetecia ficar enfiada no emprego, precisava de fugir da rotina, sentia-me a sufocar....
Neste estado de alma, apanhei o autocarro para Macau e saí na paragem do Jardim Lou Lim Iok.
Despertou-me a atenção da casa de chá, frente à paragem, que tinha sido em tempos a residência da família Lou.
Transformada pela arquitecto Carlos Marreiros e inaugurada em 2005, ficou assim um espaço de homenagem à tradição do comércio, preparação e consumo de chá em Macau.
O novo edifício, que tem o nome de Casa Cultural de Chá de Macau, apresenta uma arquitectura de forte influência portuguesa, combinada com o telhado em telha de cerâmica chinesa, evidenciando o característico encontro das culturas ocidental e oriental. Estranhamente lá dentro, não se ouve os ruídos da rua.
O chá está estreitamente ligado a Macau, que tem uma incalculável abundância em relíquias culturais relacionadas com a cultura do chá, sob a forma de poemas e dísticos dedicados ao chá, lojas e tendas de chá, casas de chá, arte do chá, comerciantes e peritos de chá, enfim... hábitos de chá.
Não é de estranhar que tenha sido erguido uma casa museu dedicada ao chá e aqui tem-se realizado várias exposições temporárias e a longo prazo, bem como actividades culturais relativas ao chá. Tudo isto serve para evidenciar a cultura do chá em Macau, fornecer informações sobre o chá na China e no ocidente, bem como para divulgar conhecimentos e estudos, pelo mundo inteiro, sobre a cultura do chá.


Depois, dei uma volta pelo jardim, procurei um banco junto ao lago e ali fiquei a contemplá-lo. Vêem-se pessoas mais velhas a fazer exercício, sozinhas ou em grupo e mesmo utilizando a natureza como apoio (uma senhora aproveitava o tronco de uma árvore mais pequena para fazer alongamentos).
Este é um jardim muito bonito e o mais chinês de todos os jardins de Macau, o Jardim Lou Lim Ieoc, foi construído no século XIX por Lou Lim, um rico comerciante chinês que deixou uma herança para o seu filho Lou Lim Ieoc. Com o declínio da fortuna da família, o jardim caiu em ruínas. Posteriormente adquirida pelo Governo, foi restaurado e aberto ao público em 1974.
Chegaram-me vozes alegres de cantigas de uma música popular chinesa. Um grupinho de pessoas, possivelmente reformados, que ali se juntam algumas vezes, para conviver e recordar velhas canções.

O tempo passou rápido entre a promoção da cultura do chá, a minha nostalgia e a diversão dos que me rodearam nessa tarde, tudo num só jardim.
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Malditas baratas...



Mas porque raio Deus criou estes intoleráveis bichos? Para além das baratas serem uns seres nojentos e péssimos “colegas” de quarto, casas de banho, cozinha, escritório, elas estão por toda a parte, pregando-nos sustos e é impossível conseguirmos conviver com elas, tal é a repulsa. E isto há mais de 300 milhões de anos! Ousados somos nós, ao tentarmos matá-las à chinelada e a insecticidas em spray.
Se procurarmos uma razão científica, dizem-nos que foi para equilibrar o ecossistema, pois o desaparecimento delas, talvez causasse uma superpopulação de mosquitos, moscas e outros insetos, que infernizam a nossa vida, e que fazem parte, por exemplo, da alimentação das lagartixas.
Tudo bem, mas porquê… as baratas urbanas? Que afinal se instalam nas nossas casas, usufruindo comidinha da boa, passeiam-se na nossa cama e por tudo quanto é sítio. Isso, é que eu não suporto!
Basta aparecer UMA! E pronto, está instalado o caos de uma luta sem tréguas.
Mesmo com os cuidados habituais, de tapar ralos com fitas grossas, não deixar comida ou loiça suja na cozinha, colar inseticida por trás das portas, pozinhos venenosos nos cantinhos dos armários, enfim, prevenção não tem faltado, mas elas, ao fim de “provarem” alguns dos venenos que se vendem nos supermercados, ficam imunes.
Quando me deparo com uma, exclamo intrigada: “Por onde é que ela entrou!?” Enquanto, é claro, não sossego até vê-la morta, porque não dá para baixar a guarda.. Pois mesmo com todos os cuidados e prevenções, elas ENTRAM e INSTALAM-SE a fazer filharada, a pontos de não haver spray nem chineladas que lhes resista.
Neste último mês, experimentei de tudo quanto é veneno. Levantava-me a meio da noite com uma lanterna para as surpreender e… lá estavam elas, em cima da bancada da cozinha, no corredor ou mesmo em cima da minha secretária, em reuniões baratais de invasão/ataque a todos os cantos da casa.
Alimentam-se de jornais, de livros, de migalhas, tudo lhes serve para sobreviver. Onde estão as lagartixas para se alimentarem delas? Porque as donas baratas não comem afinal os mosquitos/melgas, que de vez em quando zumbem lá por casa?
Repito: porque Deus fez as baratas… urbanas?
Pois, não tive outro remédio senão combatê-las com “armas semi atómicas”, pois tive de acabar por chamar a desinfestação, para as arrasar de vez. Nós é que tivemos de sair de casa para durante dois ou três dias, o veneno letal ficar a pairar por toda a casa e mergulhar nos sítios mais escondidos, a fim de envená-las!
Só que, quando regresso a casa, deparei com uma delas a passear na parede, outra dentro do roupeiro, outra em cima da mesa… mas afinal estes bichos são imortais? Eu que para entrar em casa quase ao fim de três dias, tive de levar uma máscara, quase não conseguia respirar e elas a divertirem-se à minha custa?
A sua resistência é bem conhecida, pois elas conseguem sobreviver um mês sem comer e vários dias com a cabeça arrancada, e, segundo li, são as únicas a sobreviver a uma explosão nuclear.
São bichos muito sofisticados! Os seus pelinhos do traseiro (os cercis) que funcionam como radares, capazes de perceber movimentos subtis do ar e que lhe permitem obter informações sobre possíveis ameaças, como localização, tamanho e velocidade do que se aproxima, que somos nós em princípio, é por isso que não as vemos, porque se escondem. Ainda tem uma outra característica que é o de ser um animal nocturno, pois não gosta de luz. 
E, pasme-se com esta informação: uma barata que é encontrada durante o dia, indica uma infestação, pois encontrando uma, há mais 1.000 escondidinhas, motivo porque aquela ficou sem lugar na comunidade e teve que perambular à procura de lugar para se esconder.
E pronto, querem guerra, é guerra que vão ter! Nova chamada para a desinfestação, que foi ainda mais exigente no veneno e na fumegação. 
Mais dias de ausência do nosso lar e, passados três dias, o chão parecia uma batalha campal, com um mar de baratas de papo para o ar por toda a casa.
O pior foram as limpezas, na casa inteira. Ter de lavar TODAS as loiças com água, detergente e lexívia, armários, roupas, chão mais de uma vez, etc, etc, um trabalhão que parece não ter fim. Esses malditos bichos conseguem alterar a vida de uma família inteira, só porque existem, são nojentos e procriam-se a uma velocidade vertiginosa.
Estou exausta, mas de momento, durmo mais descansada, até ver uma de novo, e então começa outra vez a infindável batalha contra estes “bichinhos de Deus”, que não deve ter pensado muito bem nas futuras consequências, ao permitir a sua existência…


PREVENÇÃO:
http://www.univap.br/campi/cipa/docs/dica_II_baratas.pdf

sábado, 3 de agosto de 2013

Divagando sobre a vida…

Não sei porque haveremos de ir revirando as páginas do passado e, de quando em vez, lembramo-nos de momentos da nossa infância, em que fomos felizes, sem preocupações, aconchegados ao colinho dos nossos pais.
E tudo isso, parece um sonho longínquo, inalcançável, quando relembramos factos dessa época da nossa existência.
Será o mundo adulto assim tão enfadonho e insidioso que somente da infância ou da adolescência, é que ainda guardamos momentos puros e de real beleza jamais reencontrada? Talvez assim seja, talvez porque os sentimentos dessa altura fossem mais puros, mais desprendidos, éramos então ingénuos…
O mundo corrompeu-nos? Aqueles momentos de felicidade, foram uma utopia?
O que é facto, é que ando sempre numa luta sem tréguas, para alcançar nem sei o quê? Olhando para uns vinte e tal anos atrás, depois do emprego, tinha mais tempo para passear, ir ao cinema, fazer croché, encontrar-me com as amigas à saída do emprego, para passearmos pela Baixa de Lisboa, contentando-nos a ver as montras, para depois nos regalarmos com um bolo, acompanhado do indispensável cafezinho, numa das pastelarias do Rossio.
De regresso a casa, as tarefas pareciam leves e feitas com alegria, porque o nosso estado de espirito tinha sido recauchutado por anteriores e pequenos momentos de prazer.
Um dia destes, veio-me à memória um dos trechos do livro “Felicidade em Poucas Palavras”, de Andrew Mathews, que diz: “Simplifique a vida. Pare de fazer coisas apenas pelo hábito”.
Sábias palavras! De facto, a alegria não está nas coisas, está em nós. E, há uma grande verdade nisso. Todos os dias somos presenteados com algo que, embora pareça ser insignificante, tem a imensa capacidade de alegrar o nosso coração.
E cheguei à conclusão que não me permito agora viver tudo aquilo que a rotina não deixa.

Somos escravos do relógio e ninguém merece isso! A vida passa como um furacão e, quando nos damos conta, chegámos à conclusão, que afinal não aproveitámos os poucos momentos de prazer e de alegria, envelhecemos e já não temos a mesma energia de antes para recuperar o que afinal nos passou ao lado.
Estes últimos anos, em que as sociedades de todo o mundo parecem querer alcançar a Lua, construindo tarefas infindáveis, o fim não está à vista e nós andamos um tanto à toa, em busca sabe Deus de quê.
-“Relaxe, evite o stresse…” - aconselham os médicos, os SPAS e as agências de viagens, que nos convidam a fazer pausas, exibindo cartazes de praias paradisíacas…
Claro que as obrigações continuam a puxar-nos, os preços das tais praias, desanimam-nos e acabamos por continuar, em busca de um bem, que nem sabemos qual e que parece ser inalcançável.
O calendário é o mesmo para todos, mas o significado de cada dia, depende de cada um de nós.
Conclusões? A felicidade é uma troca! Eu sou feliz, logo faço alguém feliz. Mais do que isso, a felicidade é um estado de espírito e ela está dentro de nós, especialmente em tudo aquilo que nos parece invisível. E, dentro de nós há uma coisa que não tem nome e essa coisa, é o que nós somos.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Maria Alice...


Eu lembro-me bem dela, a minha vizinha Maria Alice, filha da ti Júlia, que tinha uma lojinha de venda de jornais, ao fim da minha rua.
Ela faz parte das minhas boas memórias, brincávamos desde os cinco anos até à minha adolescência, depois casei, fui morar para outra cidade. Deixei de a ver, mas  fui sabendo noticias dela, sempre que visitava a minha mãe.

A Alice tinha uma beleza serena e a alegria contagiante de alguém que é feliz e com um futuro promissor. Chegou a entrar na universidade! As últimas novidades, eram com ela, desde a moda, aos namorados, era por isso, a mais popular entre nós.
Um dia numa festa de amigos, teria ela uns vinte e poucos anos, quando provou pela primeira vez um “cigarrinho de erva”, dado pelo namorado de então, dizendo-lhe que era nice, que estava na moda e que toda a gente experimentava. Então ela pensou: - “Porque não? Que mal há nisso?”
Depois… voltou a fumar no dia seguinte, num outro dia, e nos que vieram depois. Nunca mais os largou! Dizia que não era vício, que em qualquer altura deixava de fumar. Atrás do cigarrinho “especial”, vieram outras experimentações, mais ousadas e mais fortes…
Os anos passaram, muitas coisas foram acontecendo, desde perder o emprego, à morte dos pais, ela deixou a alegria esquecida, lá no fundo da alma.
Reduziu-se a si própria e ao pó que consumia.
Entrou em casas de desintoxicação, pagas por uns tios, que tentaram ajudá-la.
Reaprendeu a viver e voltava sempre a desaprender. Uma vez e outra!
Perdeu a juventude e ganhou um brilho baço.
Andou a pedir moedas nos parques de estacionamento.
Vendeu o corpo.
Ficou sem a alma.
O tempo consumiu-lhe a memória.
Tem medo de si e já não tem forças para lutar mais.
Soube que ainda é viva e que há uns anos que não consome, mas tem vergonha de ser quem é. Às vezes esquece-se disso e sorri. Um sorriso desdentado, como a sua vida, sem brilho e sem cor…

domingo, 27 de janeiro de 2013

Vida Intensa

Estávamos todos a jantar com um grupo de amigos, quando ela declarou em voz muito alta, que os seus dias tinham 36 horas. Disse-o com tanta convicção, que todos pararam de comer e depois riram dela.
Mas, imperturbável, ela começou a explicar a quantidade de coisas que fazia para caber dentro desse tempo, miraculosamente programado por ela e só para ela.
Depois de enumerar imensas tarefas, que a qualquer de nós demoraria 48 horas, todos levaram para a brincadeira, até porque a maioria achava que ela não batia bem da cabeça.
Mas eu, sabia que ela falava verdade, já o tinha desabafado por diversas vezes, afirmando que achava a vida muito curta, pois tinha muitos sonhos para cumprir. Passou a ser a sua obsessão.
E, sinceramente, um dia com apenas 24 horas, é cruelmente injusto, para conter tantos sonhos, que ela dizia ter de concretizar.
Ela queria tudo, queria o mundo numa vida. Queria num dia só, fazer caber uma dança, um livro, os seus textos, o seu trabalho, os seus amores, a atenção de toda a família, conviver num bar, ver um bom filme, aprender a tocar uma música, plantar uma árvore, ajudar alguém, e conhecer tudo aquilo que ainda não sabia – afinal, ela era ambiciosa o suficiente para querer saber de tudo um pouco, ou, de tudo um tudo.
E, ainda, todos os dias, descobria algo novo para colocar na sua infindável lista.
Eu disse-lhe que a achava muito ansiosa, mas então foi quando ela me explicou que um dia tinha lido algures, que a vida poderia acabar assim, no meio de uma frase ou de um texto qualquer como este.
-“Consegues imaginar?” perguntou-me com os olhos cheios de incompreensão.
Confortei-a! Estamos todos no mesmo “barco”. A vida pode ter coisas muitos tristes, mas temos a vantagem de poder sonhar...
Mas não se conformava! Conseguir terminar uma frase ou um texto, já seria uma tortura incalculável para ela, mas só de imaginar como seria terminar a vida, no meio dos sonhos, ou antes deles? Desde então, passou a correr o dia todo, numa luta sem tréguas com as horas, para o poder aproveitar ao máximo. Ela queria realizar alguns dos seus sonhos e com os seus vinte e tantos anos, o tempo escoava, fazia-lhe piruetas, não a deixava avançar…
Na verdade, agora o que ela queria, era chegar bem lá no alto da vida, olhar para ela, como alguém que assiste a um filme, sentir correr rápido todo aquele sangue quente nas veias e pensar com certeza: VIVI em plenitude!
Naquele dia, subiu ao prédio mais alto, deixou o vento gelado bater no seu rosto e os cabelos esvoaçar, sem se preocupar, fechou os olhos por alguns instantes, e, de braços bem abertos e o peito bem cheio de ar, atirou-se ao vácuo.
Finalmente conseguiu realizar o seu último sonho: VOAR!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O noivo perfeito

A minha amiga Ângela andava triste e frustrada com a sua vida amorosa. Desabafou que já não sabia o que fazer: estava com 32 anos e continuava super-solteira, sem fim à vista quanto ao seu celibato.
Não sabia o que pensar dela própria, se seria culpa dos seus cinco ex-namorados oficiais, de alguns dos outros romances ocasionais, ou se o defeito seria mesmo dela, do destino ou da falta de sorte.
Sentia sempre uma certa fúria suicida, quando se lembrava do Francisco, cujo namoro tinha durado mais que o normal e estavam quase noivos, quando ele a trocou pela mamalhuda da empregada do seu restaurante favorito…
Voltou a lamentar-se sobre o Zé Carlos, embora bonitão e com um certo charme, o problema era ele ser tão rústico, com as suas atitudes infantis, o que a deixavam sem pachorra e lá vinham as discussões. Um dia ele, apesar de ser rústico, fartou-se e nunca mais apareceu.
Ah, ainda havia o Pedro que ela conheceu na internet, nada de se deitar fora por sinal, mas quando foram beber um cafezinho para se conhecerem pessoalmente, foi uma desilusão ao ouvi-lo, de língua presa, que tinha “um e fefenta e oito” de altura…
E pronto! As coisas estavam mesmo difíceis para a minha amiga Ângela e nós, as amigas, bem que tentávamos apresentar colegas e amigos das nossas relações, mas rapidamente eles passavam para a ala dos frutos: ou eram “bananas”, ou tinham cara de “figo maduro”, etc.
Então, um dia em que estava mesmo desesperada, disse-me ao telefone que ia tomar uma atitude radical, pois iria beijar o primeiro homem que passasse na rua, sem selecção, sem sentido, sem quase olhar…
E assim decidida, tomou um banho, vestiu as suas melhores jeans, uma blusa que lhe deixava os ombros seminus, perfumou-se e, decidida, abriu a porta da rua, agradecendo o facto do porteiro ser casado e pôs os pés na calçada.
Olhou para os lados e viu o vizinho viúvo, com os seus setenta e tal anos a passear o cãozinho.
O rapaz do supermercado, provinciano, gorducho e coradinho, vinha abraçado a um caixote de fruta
... e o filho esquizofrénico da dona Jacinta, que fazia a sua corridinha matinal.
A não! Beijar o velhinho, estava fora de questão, só de pensar em beijar o merceeiro, dava-lhe arrepios na espinha ao ver-se a ajudá-lo naquele tipo de faina e o corredor era perigoso…
Caramba, nada lhe corria bem! Ainda mais infeliz, sacudiu a cabeça com um sorriso amargo e caminhou até à árvore do outro lado da rua. Olhou para ela e abraçou-a, já que não tinha ali ninguém para a confortar pela falha de ideias malucas que lhe tinham passado pela cabeça.
O Sérgio, activista do “Greenpeace”, ao dobrar a esquina naquele instante, olhou comovido para aquela cena…
O casamento aconteceu dez meses depois. Todas estivemos presentes, apenas a árvore é que não pode comparecer…


terça-feira, 9 de outubro de 2012

A barbearia...

O ti Francisco chegara cedo à barbearia como sempre fizera desde há trinta anos. Devagar, limpa as bancadas que já tinham sido limpas na véspera, troca as tesouras e pentes, lava as mãos, muda o lugar dos champoos e das lacas nos armários, dobra e desdobra as toalhas, lava as mãos outra vez.
Não quer que as pessoas que passam e olhem para dentro da barbearia o vejam inactivo, desesperado, sem clientes e já sem esperança que venham dias melhores.
Por isso não pára e anda de um lado para o outro a fingir que arruma coisas, vai mudando de lugar aos frascos de perfumes, secadores, os pinceis da barba…
Há trinta anos que é dono daquela barbearia e nunca tinha tido uma semana assim, nem um único cliente! Nenhum rapaz a quem rapar o cabelo, nenhum velho que queira fazer a barba. Nenhum careca de óculos à procura de uma boa conversa sobre futebol, nada!
Passadas duas horas, não sabe o que fazer, já desarrumou e arrumou tudo, limpou todos os espelhos, esfregou todas as toneiras e varreu o chão pela décima vez e agora sente-se cansado. Doem-lhe as pernas, as costas, a cabeça…
Parado, de barbearia vazia, o ti Francisco olha as pessoas lá fora que se movimentam apressadas sem deitar um único olhar à barbearia.
Senta-se na primeira cadeira virada para o espelho e fecha os olhos. Lá fora, há demasiados barulhos de rua; automóveis, obras, pessoas… e pensa que é um homem só, que dormita no seu próprio fracasso. Culpa sua? Talvez… deveria ter mudado de ramo quando o fazer barbas começaram a rarear e muitos dos seus clientes começaram a preferir os novos salões de cabeleireiro, com as bonitas manicures que se tornaram um chamariz…
Nunca fora um homem de grandes ambições, sempre sustentara a casa e educara três filhos, todos eles emigrados e com família no estrangeiro, apenas com o seu trabalho na barbearia. A mulher falecera há cinco anos e os filhos raramente davam noticias, agora era um homem só, com a sua barbearia vazia e a suportar a tal crise.
Quando abriu os olhos vê um gato à entrada da porta. Um bicho malhado de olhos esguios, que o fita entre curioso e receoso. O ti Francisco levanta-se, agradado daquela súbita companhia.
- “Entra, diz com voz doce – anda, não tenhas medo”.
Mas o gato, não sai da entrada, fitando-o com um olhar indefinido.
- ‘Vem, aqui está mais quentinho”
O gato não se mexe e o barbeiro dá meia volta e dirige-se à porta do fundo. Regressa depois com um pacote de bolachas Maria e um prato de água.
-“Deves ter sede? Olha, estas bolachas são boas, são as que comprava para os meus netos, mas agora já não os vejos há um bom tempo, tinha aqui este pacotinho de reserva, nunca se sabe…”
Abre o pacote e parte duas bolachas aos bocadinhos e coloca-os no chão, junto ao prato da água.
-“Que tal? Isto é bom, hã? Não faças cerimónia…”
O gato olha-o como se tivesse percebido e avança para o prato da água e bebe um pouco.
O barbeiro, satisfeito por ter uma companhia, sorriu, colocou-se atrás da cadeira e começou a conversar com o bicho:
-“Esta vida traz-nos sempre algumas surpresas, não é verdade? Hoje, quando aqui cheguei, a última coisa que me passaria pela cabeça, era “atender” um gato perdido como tu e, no entanto, aqui estamos, tu e eu!”
O gato que se tinha sentado junto ao prato da água, olha-o de novo e dá uma trinca no pedaço de bolacha.
- “Imagina se alguma vez pensei não ter um único cliente uma semana inteirinha. Que se passa com as pessoas? A crise não pode ser a culpada de tudo! Há falta de vontade sabes? As pessoas agora têm outros interesses e as tradições vão morrendo com estas modernices. Eles vão ao cabeleireiro, é mais chic, percebes? E agora? O que vai ser de mim e da minha barbearia?”
O gato que olhava distraído para a rua, mirou mais uma vez o ti Francisco, depois rodou a cabeça como se escutasse algo de interesse lá fora. Levantou-se e saiu! O barbeiro viu-o afastar-se e, finalmente, sai também. Fecha a porta, roda a chave e vira as costas à barbearia.



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Biblioteca

Quando eu era adolescente, gostava de ir até à Biblioteca, perto da minha escola secundária. Era um edifício antigo, que tinha sido um palacete de gente rica que, falidos, o tinham vendido à Câmara Municipal e esta, depois de alguns anos de obras de remodelação tornou-se numa linda e espaçosa biblioteca, que fazia os meus encantos.
Os corredores eram compridos e, durante esse trajecto, eu gostava de ir comendo o meu lanche que constava de uns biscoitos recheados, porque depois não deixavam comê-los lá dentro.
Porém, quando chegava à recepção, o guarda, um velhote cheio de preconceitos e de educações “à antiga” via-me de boca cheia e mandava-me engolir tudo rápido. Eu acenava afirmativamente com a cabeça, mas ele, insatisfeito perguntava –“Ouviste o que eu disse?”
Eu, aflita, dizia “sim, senhor” de boca cheia, e cuspia um monte de migalhas, o que o deixava ainda mais zangado.
Depois, andava mais depressa, a pensar porque diabo é que nunca me lembrava de comer as bolachas antes de ir para a biblioteca?
Mal chegava ao segundo andar, onde moravam o Super Homem, o Homem-Aranha e O Incrível Hulk, escondia-me ali, sob a protecção dos super-heróis da estante dos quadrinhos, que era a minha favorita e onde passava parte do meu tempo livre a sonhar que também gostava de ter super poderes.

Numa manhã de outono, resolvi fazer o caminho mais longo do outro lado da biblioteca. Quando cheguei à recepção, já tinha comido todos os meus biscoitos. Passei despercebida pelo guarda, que nem me olhou.
Então, pela primeira vez, não senti necessidade da protecção do Homem-Aranha e do Incrível Hulk. Nesse dia, parei de ler histórias aos quadrinhos e passei a ficar na secção de ficção e de aventuras do primeiro andar, onde dormi tranquilamente a manhã inteira.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A sopa amarela

Há certas ocasiões em que é difícil encontrar um lugar para comer diariamente perto do nosso emprego. Esta é a história de um homem que reencontrou esse lugar e recuperou a sua vida.

José, durante quatro anos, ia comer sempre ao mesmo restaurante. Era um desses sítios baratos, de menu único e constante, cujo prémio era a comodidade de não ter que decidir todos os dias o que comer.
Há estômagos que não procuram nada de especial para comer e o dele, era um deles.
Durante esses quatro anos, comia todos os dias o primeiro prato de sopa da casa, um caldo amarelo e confuso, em que navegavam com pouca segurança, algumas massas.

Um dia, foi anunciado que aquele estabelecimento ia fechar. Então, ele foi fazer a triste despedida, sorvendo a última sopa, comendo o último bife e agradecendo o brinde dorido do dono da tasca, com algo parecido a um espumante. Uma estranha pena dominou o seu humor e sentiu uma ligeira angústia a apertar-lhe o estômago.
Nunca tinha sentido nas suas solitárias refeições, nenhuma empatia com os outros frequentadores da tasquinha, nem com o dono, nem com os empregados, nem com a Rosalina, a cozinheira, que viu pela primeira vez, naquele dia do encerramento.
Os meses seguintes foram terríveis para o seu estômago e para o seu equilíbrio emocional, pois percebeu que entre um e o outro, havia uma estranha correspondência.
Ia experimentando um ou outro restaurante, entrava em novas tascas com a esperança renovada de acertar no menu, mas sentia que nada o satisfazia e que a sua vida andava à deriva, recordando com saudade a sopa amarela da antiga tasquinha.
Aquela saudade ia crescendo de tal forma, que já lhe afectava o sono e os sonhos. Começou a levar uma vida sem rumo, sentia-se doente e desinteressado de tudo.
Certo dia, ao sair do emprego, foi vagueando sem sentido, como fazia para distrair as ideias e os gritos do estômago que, quando reclamava mais alto, entrava então num lugar qualquer para ingerir qualquer coisa que o calasse. E, foi ao entrar num pequeno restaurante, que teve a maior e a mais grata surpresa, ao encontrar ali os antigos comensais da sopa amarela, da saudosa tasquinha.
Rosalina é hoje a sua mulher, e foi-lhe devolvido o seu equilíbrio emocional...