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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um casamento à moda antiga

A minha mãe casou nos anos quarenta. Pertencia a uma geração de opiniões censuradas a lápis azul e as mulheres com poucos ou nenhuns direitos, mas de homens cheios deles. Era um tempo em que o casamento era para toda a vida, o divórcio proibido, as uniões de facto eram pecado e filhos sem casar, uma desonra.
Era eu adolescente, e num dos serões lá de casa, casais amigos dos meus pais, reuniam-se e contavam-se histórias. Poucas me ficaram na memória, mas há uma, que eu jamais esqueci e que muito me impressionou: a história de uma amiga da minha mãe, a Manuela, que tinha casado em 1949. Os meus pais tinham sido convidados do seu casamento e assistido a uma história de vida, que teve um desfecho incrível e pouco comum para a época.

O CASAMENTO DE MANUELA:
Manuela ia casar! Havia uma roda-viva de última hora! A festa prometia ser um acontecimento bem sucedido, para isso contribuíram os esforços de todos, pai, irmãos, tios e afins, porque como filha única, os pais faziam questão de uma festa memorável.
Manuela estava feliz e nervosa, como é de costume as noivas estarem.
Levantara-se cedo, tinha ido ao cabeleireiro antes do pequeno-almoço e quando saíra eram já horas do almoço, que tomou com a avó, num restaurantezinho perto da praça onde ela vivia.
Com as mãos trémulas, a avó, colocou-lhe na lapela do casaco uma pequena jóia que tinha por sua vez recebido da sua mãe, antes de morrer. E assim se faz a passagem de testemunhos, numa continuidade de gestos e intenções.
Tinha sido prepositadamente que se tinha encontrado com aquela avó, que adorava, porque lhe transmitia serenidade e paz. A avó tinha-lhe dito que não ia à festa, porque se sentia doente e fraca, mas fez-lhe bem este encontro antes da cerimónia, que a deixou mais serena para este acontecimento tão importante e definitivo da sua vida.
Quando regressou a casa já as tendas tinham sido erguidas, as mesas postas, o bar pronto a funcionar, os empregados movimentavam-se atarefados com cadeiras, arranjos de flores e velas.
Visto que nenhuma ajuda era necessária retirou-se para o seu quarto, onde se preparou para mergulhar num banho quente e relaxante. Já estava pronta antes mesmo de chegarem os primeiros convidados, que a sua família ia recebendo juntamente com a família do noivo.
Colocou no decote generoso o alfinete que a avó lhe dera, para a sentir presente. A mãe, bela como sempre, inigualável, rodeada dos seus colaboradores e alguns convidados, esperava-a para seguirem para a capela.
Este casamento era do agrado das duas famílias. Foi um casamento faustoso, na quinta dos pais do noivo, ali para os lados de Santarém, celebrado na capela que ainda pertencia à familia, pelo pároco daquela pequena aldeia, seria de esperar que a conclusão desse casamento seria: “E Viveram Felizes para Sempre”, mas infelizmente não foi assim...
Quando, passados dois meses, Manuela apareceu em casa do pai a sangrar do nariz, consequência de uma “embirração” com a porta do quarto - desculpu-se ela - nada fazia prever que essa “embirração” começasse a ser sistemática. A minha mãe, era a única amiga desses desabafos.
Só quando teve que ir para o hospital, com o maxilar partido, se tornou claro que o marido para além de lhe infringir maus tratos, a mantinha dominada psicologicamente, pois os meus pais aconselhavam-na a separar-se, mas os tempos eram outros e a vergonha dessa separação tão imatura, fazia-a regressar sempre a casa do marido, que já era notório o seu temperamento violento, quando certa vez entrara em confronto com ela por causa duma pequena viagem que Manuela queria fazer com a avó a casa de uns parentes que viviam no norte.
Daí a partir para a agressão física, foi um pequeno passo. Manuela evitava discussões, que a propósito de qualquer frase, degenerava para um descontrolo capaz de gerar uma cena de violência imparável, com insultos e agressões de toda a ordem.
Ela ia suportando tudo, em silêncio, por vergonha, sempre na esperança que as coisas melhorassem, depois de ele lhe pedir perdão e prometer a chorar, que tudo ia mudar...
História já conhecida de todos nós e sempre com o mesmo fim, isto é, sem fim à vista. Uma noite, Manuela ouviu-o chegar, batendo com as portas; com o coração acelerado esperou que ele se deitasse sem a incomodar, como às vezes acontecia. Já dormiam em quartos separados desde que numa noite Manuela teve de ir receber assistência ao hospital com um pulso partido. Ele era esperto, nunca lhe batia na cara para não a desfigurar, para as pessoas não se aperceberem do que realmente se passava naquele casal aparentemente tão amoroso.
Com o coração a bater, Manuela aproximou-se da porta e escutava-o andar de um lado para o outro, tropeçando aqui e acolá, por certo já embriagado. Começou a tremer e a rezar, pedindo a Deus que o afastasse da sua porta, da sua cama, do seu corpo. Mas foi esse corpo que ele violentou nessa noite, violando, mais do que isso, a dignidade da mulher, depositando nele o sémen de que resultaria um ser não desejado, que Manuela, ao princípio, odiou mais do que se possa imaginar, mas que durou apenas o tempo do seu desamor. Com o nascimento do filho, seguiu-se uma paz morna e podre, feita de renúncias e despojos, uns tempos sem história em que mal se viam, presumindo Manuela, que outra mulher ocupava na vida do marido, o lugar que ela definitivamente recusava ocupar.
A criança ficava muitas vezes em casa dos avós, quando ela se sentia mais deprimida e fraca, valia-lhe muitas vezes a amizade dos meus pais, que a confortavam conforme sabiam e podiam.
Mas um dia, naquela madrugada, ainda escura, acordou com barulhos do outro lado da casa com um bater da porta, coisas a cair e um grito abafado. Ficou em pânico, fazendo-a recuar tempos atrás, no dia em que fora violada e, ficou algum tempo à escuta. Um vulto entrou no seu quarto a cambalear, estendeu um braço na direcção dela e caiu desamparado a meio do caminho.
Manuela não se atrevia a aproximar-se mais do que o suficiente, apenas para verificar se ele respirava. Ouvia-se apenas um ligeiro ruído, um estertor, arquejando ao mesmo tempo que tentava dizer-lhe qualquer coisa. Ela nem se atrevia a acender uma luz, mas na penunbra começou a ver uma quantidade de sangue, que lhe saía da manga da camisa e alastrava pelo chão, onde tinha caído de bruços.
Recuou, sentou-se numa cadeira e ficou a olhá-lo, estupidificada, sem força nem vontade de o socorrer ou pedir ajuda. Aos poucos ele deixou de se mexer e já o dia rompia quando Manuela, calma e friamente, arranjou-se, meteu uma pequena muda de roupa num saco e foi hospedar-se num modesto hotel, perto da praia.
Precisava pensar, para não ser acusada do crime de falta de assistência à vítima. A meio da manhã, encheu-se de coragem e ligou para casa, para perguntar à empregada se estava tudo bem... quase desmaiou, quando ouviu a voz do marido, forte e saudável, que lhe perguntava:
“-ONDE É QUE ANDAS?”
Tremendo, deixou cair o telefone e ficou a olhar para ele, como se este mordesse…
-“ONDE ESTÁS?” - Voltou a ouvir voz odiada, tão alto e tão irritado, que se podia ouvir distintamente.
-“Estou... estou na rua, vim fazer umas compras. E tu? Estás bem?”
-“Não, não estou bem, com um morto em casa, como posso? E a Lina, foi para o hospital com ferimentos graves!”
Não entendia nada, apenas conseguiu balbuciar um “vou já!”
Quando chegou a casa, acabou por entender que no escuro, e no seu desejo que fosse ELE, confundira o vulto, como se fosse o do marido, quando afinal se tratava de um assaltante perigoso, que depois de ter atacado a empregada e já muito ferido com as facadas que esta lhe desfechara, se dirigiu pelo corredor fora, à procura de uma saída e de socorro, caindo ali à sua frente, ferido de morte.
Incrível como tudo parecia ser de uma outra forma. A verdade contada pelo seu odioso marido, caiu à sua frente, como se fosse um muro de esperança que desabasse.
Lina, a brava Lina, ainda ficou uma semana no hospital, mas recuperou fisicamente, o mesmo não aconteceu psicologicamente, por isso despediu-se.
Quando, três meses e meio depois Manuela abateu a tiro o homem que era suposto ser um assaltante, mas que afinal se veio a confirmar ser o seu marido, que “no escuro ela confundiu”, tinha arranjado o perfeito álibi, até porque ela estava demasiado espancada, para que a policia não acreditasse...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

BRASIL! Um Juíz nota 20!!

O juíz Odilon de Oliveira, de 56 anos, estende o colchonete no piso frio da sala, puxa o edredom e prepara-se para dormir ali mesmo, no chão, sob a vigilância de sete agentes federais fortemente armados.
Oliveira, é juiz federal em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul na fronteira com o Paraguai e, jurado de morte pelo crime organizado, está morando no fórum da cidade. Só sai quando extremamente necessário, sob forte escolta. Em um ano, o juiz condenou 114 traficantes a penas, somadas, de 919 anos e 6 meses de cadeia, e ainda confiscou seus bens. Como os que pôs atrás das grades, ele perdeu a liberdade.
-"A única diferença é que tenho a chave da minha prisão."
Traficantes brasileiros que agem no Paraguai se dispõem a pagar US$ 300 mil para vê-lo morto. Desde junho do ano passado, quando o juiz assumiu a vara
de Ponta Porã, porta de entrada da cocaína e da maconha distribuídas em grande parte do País, as organizações criminosas tiveram muitas baixas.
Nos últimos 12 meses, sua vara foi a que mais condenou traficantes no País.
Oliveira confiscou ainda 12 fazendas, num total de 12.832 hectares, 3 mansões - uma, em Ponta Porã, avaliada em R$ 5,8 milhões - 3 apartamentos, 3 casas, dezenas de veículos e 3 aviões, tudo comprado com dinheiro das drogas. Por meio de telefonemas, cartas anônimas e avisos mandados por presos, Oliveira soube que estavam dispostos a comprar sua morte. 'Os agentes descobriram planos para me matar, inicialmente com oferta de US$100 mil.' No dia 26 de junho, o jornal paraguaio Lá Nación informou que a cotação do juiz no mercado do crime encomendado havia subido para US$ 300 mil. 'Estou valorizado', brincou. Ele recebeu um carro com blindagem para tiros de fuzil AR-15 e passou a andar escoltado. Para preservar a família, mudou-se para o quartel do Exército e em seguida para um hotel. Há duas semanas, decidiu transformar o prédio do Fórum Federal em casa. -"No hotel, a escolta chamava muito a atenção e dava despesa para a PF." É o único caso de juiz que vive confinado no Brasil. A sala de despachos de Oliveira virou quarto de dormir. No armário de madeira, antes abarr otado de processos, estão colchonete, roupas de cama e objetos de uso pessoal.
O banheiro privativo ganhou chuveiro. A família - mulher, filho e duas filhas, que ia mudar para Ponta Porã, tiveram de continuar em Campo Grande. O juiz só vai para casa a cada 15 dias, com seguranças.
Oliveira teve de abrir mão dos restaurantes e almoça um marmitex, comprado em locais estratégicos, porque o juiz já foi ameaçado de envenenamento. O jantar é feito ali mesmo. Entre um processo e outro, toma um suco ou come uma fruta. -"Sozinho, não me arrisco a sair nem na calçada."
Uma sala de audiências que virou dormitório, com três beliches e televisão. Quando o juiz precisa cortar o cabelo, veste colete à prova de bala e sai com a escolta.
-"Estou aqui há um ano e nem conheço a cidade porque na última ida a um shopping, fui abordado por um traficante."
Os agentes tiveram de intervir. Hora extra! Azar do tráfico, que o juiz tenha de ficar recluso. Acostumado a se deitar cedo e levantar de madrugada, ele preenche o tempo com trabalho. De seu 'bunker', auxiliado por funcionários que trabalham até alta noite, vai disparando sentenças:
Condenou o mega traficante Erineu Domingos Soligo, o Pingo, a 26 anos e 4 meses de reclusão, mais multa de R$ 285 mil e o confisco de R$ 2,4 milhões resultantes de lavagem de dinheiro, além da perda de duas fazendas, dois terrenos e todo o gado.
Carlos Pavão Espíndola foi condenado a 10 anos de prisão e multa de R$ 28,6 mil.
Os irmãos, condenados respectivamente a 21 anos de reclusão e multa de R$78,5 mil e 16 anos de reclusão, mais multa de R$56 mil, perderam três fazendas.
O mega traficante Carlos Alberto da Silva Duro pegou 11 anos, multa de R$82,3 mil e perdeu R$ 733 mil, três terrenos e uma caminhonete.
Aldo José Marques Brandão pegou 27 anos, mais multa de R$ 272 mil, e teve confiscados R$ 875 mil e uma fazenda. Doze réus foram extraditados do Paraguai a pedido do juiz, inclusive o 'rei da soja' no país vizinho, Odacir Antonio Dametto, e Sandro Mendonça do Nascimento, braço direito do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
'As autoridades paraguaias passaram a colaborar porque estão vendo os criminosos serem condenados.' O juiz não se intimida com as ameaças e não se rende a apelos da família, que quer vê-lo longe desse barril de pólvora. Ele é titular de uma vara em Campo Grande e poderia ser transferido, mas acha 'dever de ofício' enfrentar o narcotráfico.
'Quem traz mais danos à sociedade é mega traficante. Não posso ignorar isso e prender só mulas (pequenos traficantes) em troca de dormir tranqüilo e andar sem segurança.'

ESTE JUÍZ MERECE OS NOSSOS APLAUSOS!
POR ACASO A MÍDIA NOTICIOU ESSA BRAVURA QUE O BRASIL PRECISA SABER?
POR FAVOR, FAÇA A SUA PARTE E DIVULGUE O MÁXIMO QUE PUDER!!EU JÁ FIZ A MINHA!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Tecnologias à parte...

Esta história é bastante conhecida e passa-se na América.
Um homem que estava desempregado, resolveu responder a um concurso da Microsoft para o lugar de técnico de limpeza.
O Director de Recursos Humanos entrevista-o, faz-lhe um teste e, finalmente dá-lhe a boa notícia:
- O lugar é seu, dê-me o seu e-mail e eu enviar-lhe-ei a ficha para preencher, a data e hora a que se deverá apresentar ao serviço.
O homem, desesperado, responde que não tem computador, e muito menos, um e-mail.
O director, lamentou esse facto, mas se não tivesse e-mail, queria dizer que virtualmente não existia, e, como não existia, não o podia contratar.
O homem desanimado, fica no meio da rua, sem saber o que fazer. Tinha somente 1.000 USD no bolso e então teve uma ideia: foi ao supermercado e comprou uma caixa de 10 Kg de tomates.

Bateu de porta em porta e foi vendendo os tomates ao Kg e, em menos de duas horas, conseguiu duplicar o capital investido. Entusiasmado, repetiu a operação mais três vezes e voltou a casa com cerca de 16.000 USD.
Então verificou que podia sobreviver desse modo e podia assim a sustentar a esposa e os filhos em idade escolar.
Saía de casa cada vez mais cedo e voltava para casa mais tarde, e assim foi triplicando ou quadruplicando o dinheiro todos os dias.
Passado pouco tempo, comprou uma carrinha para transportar outos legumes, mais tarde trocou-a por um camião e pouco tempo depois já tinha uma pequena frota de veículos para distribuição de caixas dos mais variados legumes.
Passados 5 anos, o homem já era dono de uma das maiores distribuidoras de alimentos dos Estados Unidos. O negócio tornou-se num êxito! Pensando no futuro da sua família, decidiu fazer um seguro de vida. Chama um corrector de seguros, acerta um plano e quando a conversa acaba, o corrector pede-lhe o endereço de e-mail para enviar a proposta. O homem disse que não tem e-mail.
Curioso, o corrector comentou:
- Você não tem e-mail, não usa as novas tecnologias e conseguiu construir este império, imagine o que você seria se tivesse e-mail!?
Ao que o homem respondeu modestamente:
- Seria um técnico de limpeza da Microsoft!

Cada um de nós compõe a sua história e cada um em si, carrega o dom de ser capaz de ter êxitos e ser feliz.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Qual é o preço da beleza?


Naquela manhã em Nova Iorque, seria uma manhã como outra qualquer, se não fosse um sujeito que desce numa estação do Metro, vestindo umas jeans, camisola e boné, encosta-se na entrada, tira o violino de uma caixa e começa a tocar com entusiasmo. Durante 45 minutos que ali esteve a tocar, foi completamente ignorado pela multidão que passava por ali àquela hora matinal, dirigindo-se apressados para os seus empregos e outras tarefas.Ninguém sabia, mas o músico era nem mais que Joshua Bell, um dos violinistas mais bem pagos do mundo, que estava ali a executar peças musicais consagradas num raríssimo instrumento: um “Stradivarius” de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Toda esta encenação foi uma experiência realizada pelo Jornal “The Washington Post”, cujo prepósito era o de lançar o debate sobre “valor, contexto e arte”:

a) Num ambiente comum, a uma hora pouco apropriada, somos capazes de reconhecer a beleza?
b) Paramos para apreciá-la?
c) Podemos reconhecer o talento num contexto inesperado"?
d) Quantas outras coisas excepcionais nos passam despercebidas?

O que é facto, este ensaio no Metro de Nova Iorque gravado em vídeo, mostra centenas de homens e mulheres que ali passavam pelo artista, apressados, sem que ninguém se detivesse a observá-lo e muito menos a ouvi-lo, indiferentes ao belíssimo som do violino.Dias antes, este mesmo ignorado rapaz da estação de Metro, tinha estado a tocar no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custavam 1000 dólares.
Simplesmente porque ninguém o anunciou com a “etiqueta” de luxo, ninguém teve a sensibilidade para “sentir” ou reparar que ali estava a decorrer ARTE!
Esta experiência vem questionar os nossos sentimentos e a nossa apreciação sobre a cultura e a arte. Afinal o que realmente as pessoas gostam e querem? O que apreciam realmente? É o mercado que dita o que usar, ver, vestir ou… ser?
As pessoas são manipuladas consciente ou inconscientemente pelo mercado, pelos mídea e pelas instituições que detêm o poder financeiro? Será que só é valorizado o que tem a etiqueta e o preço da fama?Joshua Bell, quando foi em visita ao Brasil, foi entrevistado pela Revista QUEM, sob o tema “O galã da música clássica”, mas apenas publico estas duas questões que lhe foram postas entre outras e assim podemos tirar algumas elações da personalidade deste jovem e famoso violinista:
Revista QUEM: A revista People elegeu-o, em 2000, uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo. Foi importante para você?
JB: Não! (risos). Coisas como essa não significam nada para o que eu faço. Acho que a melhor coisa disso tudo é que é importante que os músicos clássicos façam parte da mídia, porque é bom para a música clássica, de forma geral.
Revista QUEM: Tocaria de novo numa estação de Metro?
JB: Ah, não (risos)! Não é algo que penso repetir tão cedo. Mas acredito que a reportagem escrita sobre isso (que ganhou o Pulitzer, o maior prémio do jornalismo americano, em 2007) foi interessante, porque fez as pessoas pensarem no contexto da música e no que elas vêm e sabem sobre o que está a sua volta. Isso mostra que na música você precisa de um público, de atenção... E participar nessa experiência me fez ter certeza disso.

Este exemplo, é uma lição para que fiquemos mais atentos à manipulação e ao que nos cerca.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morador de rua cuida de 10 cães

Esta é uma bela história de amor pelos animais, que me chegou por email e que merece ser divulgada.
Rogério é um morador de rua que vive numa carroça coberta com 10 cães, entre eles, alguns encontrados em condições extremas - espancados pelos antigos donos, jogados pela janela de um caminhão, doentes, abandonados e esfomeados, largados ao léu, amarrados em postes etc.
Vive de doações de ração, remédio e comida. Os cães são muito bem tratados, mas dependem do amor e do carinho que o Rogério tem por eles, e da caridade daqueles que o conhecem e admiram.Eles vivem próximo a pontos de ônibus, na avenida Georges Corbusier, após a rua Jequitibás (região do Jabaquara, em São Paulo).
Os cães não atrapalham ninguém, são super-educados e simpáticos (todos castrado(a)s) e passam boa parte do dia dentro da carroça.
Rogério é muito querido pelos comerciantes da região, mas o problema é durante a madrugada, quando bêbados no volante, e garotos usuários de droga na região, têm sido uma constante ameaça. Rogério já foi espancado por jovens drogados e chegaram a jogar álcool nele enquanto dormia com os cães dentro da carroça, por sorte não tiveram tempo de acender o fósforo, pois um dos cães latiu e o avisou do perigo.Ele é um exemplo de como uma pessoa pode se doar. Alguém na condição dele, poderia ter escolhido outros caminhos, mas Rogério demonstrou coragem e decidiu perseverar. Além de ser uma pessoa de muito valor, faz caridade prá deixar muito bacana por aí no chinelo. Sua presença ilumina os lugares por onde passa, mas ele já está cansado e também não é mais tão jovem assim.Perante esta grandeza de alma, este homem merece ser ajudado. É por isso que peço àqueles que lerem esta história e que tenham acesso às ruas de S. Paulo - Brasil, para que o Rogério possa conseguir uma oportunidade que lhe propicie melhores condições de moradia e de vida, em qualquer cidade, para que ele possa cuidar não somente dos seus, mas de outros tantos cães abandonados por esse Brasil, e que precisam de muitos cuidados e de carinho. Já lhe ofereceram abrigo, mas desde que os cães ficassem para trás, e o Rogério recusou, pois para ele, estes cães são como filhos; são sua familia.Outro dia ele estava levando todos os cães para um pet shop para tomar banho - eram 11 cachorrinhos felizes - originalmente eram 10, mas agora apareceu mais um, um fox paulistinha -
Ele disse que havia passado remédio contra pulgas nos cachorros, e que o tal remédio é meio melado, e então teve que dar banho em todos eles. Alguém perguntou quanto ele iria gastar para dar banho em toda aquela tropa de cachorros, e ele, sorrindo como sempre, disse que a moça do pet shop o ajudava e não cobrava nada. Santas almas!
Voltaram a perguntar a ele - e você? Onde toma banho?
E ele respondeu que tomava banho no posto de gasolina da esquina, banho frio, gelado mesmo. Disse que, como era nordestino, estava acostumado.

Às vezes faltam palavras que possam definir a grandeza de uma alma como esta, que mesmo não tendo quase nada para si, dá o pouco que tem para minorar o sofrimento desses pobres animais de rua. Muito mais importante dos que as aparências, a riqueza, e o poder ostentado pelas pessoas, são suas atitudes e seus valores éticos e espirituais.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma história de guerra

Esta é uma história real e humana onde mostra que afinal há seres humanos que, apesar de serem mandados matar sem piedade, ainda lhes resta sentimentos que estão acima da brutalidade das guerras.

Charlie Brown era um piloto americano de um avião de guerra B-17G do 379th BG na cidade de Kimbolton, em Inglaterra. O seu B-17 era o conhecido pelo nome de "Ye Old Pub" e estava seriamente danificado, atingido pelas balas dos caças inimigos e pela artilharia anti-aérea.
Com a bússola arruinada, ele voava perdido e desnorteado, uma vez que ao invés de fazer rumo para a sua base inglesa, mais se embrenhava para dentro da Alemanha, Após sobrevoar um aeródromo alemão, um caça Messerschmidt Me 109G foi enviado com ordens de abater este B-17 inglês. Quem estava no comando do caça, era o alemão Franz Steigler. Ao se aproximar do bombardeiro, não podia crer no que via:

- "Nunca vi um avião naquele estado! A secção traseira, o leme e tudo o que se avistava estavam muito avariados, artilheiros feridos, a proa do quadrimotor danificada e havia furos por toda fuselagem." – recorda ele.
Embora tivesse o caça armado e carregado, Franz emparelhou o seu Me 109 com o B-17 e olhou para o comandante Charlie Brow. Este, ensanguentado e apavorado, lutava com os controles para manter o seu bombardeiro.
Ciente da desorientação do piloto, Franz acenou para que eles girassem 180 graus, e foi escoltando o avião até a um rumo seguro para Inglaterra. Então Charlie Brown saudou-o e voltou para a sua base.
Ao pousar, Franz informou o Chefe de Operações que tinha abatido o avião bombardeiro sobre o mar e não quis falar mais sobre o assunto.
Por sua vez em Inglaterra, já no "debrief", Charlie Brown e a sua tripulação informou os seus superiores do ocorrido, mas foram instruídos para não falarem sobre o episódio com ninguém.
Passados 40 anos, Charlie partiu em busca daquele piloto alemão que o salvou e que ele jamais esqueceu. Ao fim de muito tempo de pesquisas, ele finalmente encontrou Franz, que nunca citou o facto, nem sequer nas reuniões do pós-guerra.
Aqui está a foto dos dois pilotos no seu encontro nos EUA, com Franz Steigler à esquerda e Charlie Brown à direita
Encontraram-se então nos EUA, numa reunião do 379 BG, com a equipa que ainda estava viva, graças ao facto de Franz não ter dispararado as suas armas contra eles. Quando perguntaram a Franz porque não cumpriu as ordens do Chefe de Operações para derrubar o B-17 inglês, ele simplesmente respondeu:
- "Não tive coragem de acabar com a vida daqueles homens que lutavam para viver. Por isso, voei ao lado deles por um longo tempo e fui reparando que davam tudo de si para chegar são e salvos à sua base. Não seria eu que ia impedi-los de viver! Simplesmente eu não podia fazer fogo num inimigo indefeso. Seria o mesmo se eu estivesse num pára-quedas.
Ambos os pilotos morreram em 2008.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Como conheci o meu amigo....

Um dia, quando eu era caloiro na escola, vi um miúdo da minha turma a caminhar nos corredores, transportando uma enorme quantidade de livros na mochila e nas mãos e dei comigo a pensar:
-“Porque será que ele leva para casa todos os livros numa sexta-feira? Deve ser mesmo um marrão…”
Como já tinha o meu fim-de-semana planeado (festas e um jogo de futebol com meus amigos no sábado à tarde), então encolhi os ombros e segui o meu caminho.
Conforme ia caminhando, vi que vinha um grupo de miúdos a correr na direcção dele.
Eles rindo, atropelaram-no, arrancando-lhe todos os livros dos braços e empurraram-no, de tal forma que ele caiu no chão.
Os seus óculos voaram, e eu vi-os aterrar quase aos meus pés. Ele ergueu o rosto e uma terrível tristeza estava estampada nos seus olhos, as lágrimas começaram a correr-lhe em silêncio pelas faces.
O meu coração penalizou-se! Então apanhei os óculos e quando me dirigi a ele ajudando-o a levantar-se, resmunguei furioso: -“Aqueles tipos são uns parvos! Alguém devia dar-lhes uma lição de boas maneiras.”
Ele deitou-me um olhar agradecido.
-“Ah, muito obrigado!”
Agora havia um grande sorriso na sua face. Era um daqueles sorrisos que realmente mostram gratidão. Baixei-me para o ajudar a apanhar os livros, e perguntei-lhe onde morava.
Por coincidência ele morava perto da minha casa e chamava-se Carlos, então eu perguntei como é que nunca o tinha visto antes? Respondeu que nos anos anteriores, tinha frequentado uma escola particular e a conversa generalizou-se por todo o caminho de volta para casa. Num gesto de simpatia, carreguei-lhe os livros e percebi que devia ser um miúdo muito porreiro. Num impulso, perguntei-lhe se queria jogar futebol no sábado comigo e com os meus amigos e ele disse que sim.E foi assim que ficamos juntos todo o fim-de-semana e quanto mais eu conhecia o Carlos, mais gostava dele. E os meus amigos pensavam da mesma forma.

Na segunda-feira, encontrei-o de novo no corredor e lá ia ele com aquela quantidade imensa de livros outra vez. Interceptei-o e perguntei curioso:
“- Com os Diabos pá, vais fazer o quê com os livros de novo?”
Mas ele sorriu simplesmente, entregou-me metade dos livros e fomos a conversar até à sala de aula.

Nos quatro anos seguintes, Carlos e eu tornámo-nos os melhores amigos e, de facto ele nunca me desiludiu.
Quando nos estávamos a formar começámos a pensar em escolher as nossas carreiras: Carlos seria médico, e eu ia tentar uma bolsa escolar na equipa de futebol. Eu sabia que seríamos sempre amigos e que a distância nunca seria um problema.

Carlos era o orador oficial da nossa turma e por isso teve que preparar o discurso de formatura. Eu estava super contente por não ser eu a subir ao palanque e ter de discursar, não tinha jeito nenhum para esse tipo de coisas.
No dia do discurso da nossa Formatura eu vi que Carlos estava óptimo. Tornara-se um homem, mais encorpado e realmente tinha uma excelente aparência, mesmo usando óculos. Na realidade, ele saia com mais miúdas do que eu, e todas elas o adoravam!

Confesso que às vezes eu até ficava com alguma inveja... e hoje, era um desses dias. Ele porém, estava nervoso por causa do discurso. Então dei-lhe uma palmadinha nas costas e disse-lhe em tom alegre:
-“Então, rapaz? Ânimo! Vais sair-te bem! Estamos a torcer por ti”
Ele olhou para mim com aquele olhar de gratidão tão característico e sorriu-me:
-“Claro!”Carlos subiu decidido ao palco, limpou a garganta e começou o seu discurso:
- “A Formatura é uma época especial para agradecermos àqueles que nos ajudaram durante todos estes duros anos. Um especial agradecimento os pais, aos professores, aos irmãos, talvez até a um treinador. Mas principalmente aos amigos! Eu estou aqui para lhes dizer que ter um amigo, é o melhor tesouro que alguém pode ter na sua vida e, por essa razão, eu tenho uma história para contar sobre como conheci aquele que é hoje o meu melhor amigo."
Eu olhei espantado para o Carlos, sem conseguir acreditar que ele ia contar a história sobre o primeiro dia em que nos conhecemos.
Ele começou por contar algo que eu ignorava por completo: ele tinha planeado suicidar-se naquele fim-de-semana, porque se sentia marginalizado e não conseguia adaptar-se à escola e aos colegas! Contou a todos como tinha esvaziado o seu armário na escola, para que a mãe não tivesse que fazer isso depois de ele morrer. Estava a levar as suas coisas todas para casa quando os acontecimentos se precipitaram e eu entrei na sua vida. Ele olhou directamente no meus olhos e lançou-me um pequeno sorriso, continuando:
-“Felizmente eu encontrei alguém que de repente se interessou por mim, se tornou meu amigo e salvou-me de fazer algo abominável. Mas tudo passa e consegui ter um caminhar cada vez mais firme e consciente, percorrendo as inúmeras experiências com o meu amigo. A vida vai-nos fornecendo as bases que moldam e lapidam as arestas da nossa personalidade e tudo isso, graças ao companheirismo e à importância que podemos dar no momento certo, a quem precisa de nós".
Eu ouvia-o com um nó na garganta, assim como toda a plateia o fixava e ouvia atentamente com admiração, enquanto aquele rapaz popular e bonito contava a sua história sobre um momento de fraqueza. E depois senti os olhares da mãe e do pai sobre mim com aquele sorriso de gratidão que eu tão bem conhecia. Eu nunca me tinha apercebido de nada até àquele dia da inesperada revelação. Afinal, com um pequeno gesto podemos mudar a vida de uma pessoa, para melhor ou para pior. Eu estou feliz por ter cedido ao meu impulso de ajudar aquele rapaz...

NOTA: Este é um testemunho que já vem sendo divulgado há algum tempo através de emails, que eu adaptei e que nos deixa uma lição sobre a amizade, pois nunca é demais partilhar estas bonitas histórias com os cibernautas que me visitam.

Os amigos são anjos que nos põem de pé, quando as nossas asas têm problemas e não se lembram de como se deve voar.

terça-feira, 16 de março de 2010

Dr. Pedro Choy - uma lição de vida‏

Esta é a história de Pedro Choy! Uma verdadeira inspiração para quem passa a vida a lamentar-se muito da vida e a fazer pouco para lhe dar a volta...
Olhando para ele, para a forma dominadora como fala, para o modo seguro como trabalha, avaliando as 18 clínicas que tem, espalhadas por todo o país, ostentando o seu nome, metade português, metade chinês, “Clínicas Dr. Pedro Choy”, medindo e pesando o homem, o médico, Pedro Choy, ninguém diria dessa análise precipitada e ligeira, que nasceu pobre. Mas nasceu, muito pobre mesmo!
Tão pobre que só teve electricidade aos 15 anos. Tão pobre que as instalações sanitárias da sua pobre casa, em Almeirim, Portugal, eram no fundo do quintal e consistia num buraco feito no chão, rodeado por uma cabana de madeira feita por si e pelos irmãos, com tábuas e pregos. Tão pobre que, todos os anos, Pedro Choy e os irmãos tapavam esse buraco com terra e abriam outro buraco ao lado.
Pedro Choy nasceu em Macau e veio com três meses para Portugal, mais concretamente para Almeirim, onde vivia uma avó (mãe do pai). Um ano depois, rebentou a guerra colonial e o pai foi para Macau, onde ficou 14 anos. A mãe de Pedro Choy, chinesa, ficou sozinha com quatro filhos, três rapazes e uma rapariga, numa terra estranha, sem falar uma palavra de português.
- “A minha mãe, além de ser chinesa, vestia-se de uma forma tipicamente chinesa. Naquela altura, em Almeirim, nunca ninguém tinha visto um chinês. As pessoas andavam atrás dela como quem vê um extraterrestre. Faziam fila para a ver. A ponto de, um dia, ela ter desatado a fugir e ter caído, porque tinha medo de toda aquela curiosidade. Por outro lado, o meu pai era o único adulto com quem ela conseguia falar, dado que não falava português. É uma sobrevivente, a minha mãe. Uma mulher muito especial.”
Quando chegou a Portugal, e sobretudo a Almeirim, a mãe de Pedro Choy desconfiava que algo de muito sério se passava. Acostumada à densidade populacional da China, estranhava a escassez de pessoas.
-“O meu pai assegurava-lhe vezes sem conta que não havia nenhuma espécie de guerra, que estava tudo bem. Não havia nem guerra, nem peste, nem epidemias. Porque ela não conseguia acreditar que a população da terra fosse mesmo só aquela, que não estava ninguém escondido.”
A avó de Pedro Choy morava numa casa igualmente pobre, com chão em terra e divisões improvisadas pelos netos, com tábuas. Era cauteleira e vidente. Na terra era conhecida como “a bruxa”.
- “Lembro-me de passar de ouvir as pessoas dizer: ‘Lá vai o neto da bruxa’. Não foi fácil. Fomos vítimas de chacota, não só por sermos pobres mas também por sermos chineses. No meu caso, por exemplo, inventavam-me nomes. Chamavam-me ‘Choy-Roy-Foy-Coy-Moy…’, tudo acabado em oy.” Mas Pedro foi educado para ser forte. O pai ensinou-o a dar como resposta: -“Pois é isso mesmo! É por isso que sou melhor do que tu.”

Pedro Choy e os irmãos cresceram e fortaleceram-se, num ambiente hostil. Apesar da pobreza, os “filhos da chinesa” e “netos da bruxa” nunca andaram sujos nem nunca passaram fome:
-“Podíamos usar roupas usadas, velhas, dadas, mas estavam limpas. Podia não haver dinheiro para comprar carne mas tínhamos, pelo menos, arroz todos os dias. Arroz e leite. Não passávamos fome, do ponto de vista quantitativo.”
Passar fome, passou mais tarde, enquanto estudante universitário. Quando pediu uma bolsa de estudo e a viu recusada, Pedro Choy sentiu uma revolta grande. “Eu era a pessoa mais pobre do meu curso. Se eu não tinha direito à bolsa, quem é que tinha? Investiguei e descobri que os bolseiros eram filhos de empresários, que pura e simplesmente não faziam declarações de rendimentos.”
E assim, sem bolsa, foi trabalhar. De resto, mesmo antes de entrar para a faculdade, prevendo qualquer dificuldade, tentou armazenar dinheiro e trabalhou na Compal, em Almeirim. Era higienista, nome pomposo que, na prática, significava lavar a fábrica toda.
- “Foi o cargo que escolhi porque era o mais bem pago. Tinha um subsídio de risco porque era necessário lavar as máquinas por dentro. E às vezes havia acidentes. Além disso, era preciso carregar às costas sacos de 50 quilos de soda cáustica. E a soda cáustica, como o nome indica, é...cáustica.”

Além desse trabalho, teve outros: na apanha do tomate, nas vindimas, como servente de pedreiro. Mas o dinheiro amealhado não foi suficiente e, na universidade de Coimbra, onde foi tirar Medicina, passou fome.
- “Comia uma vez por dia, ao almoço, na cantina da universidade de Coimbra. Não tocava na maçã e no pão. Embrulhava-os e levava para casa, para me servirem de ceia. É difícil dormir quando se tem fome.”
Para dar a volta, rompeu com uma das suas convicções, a de que ensinar karaté devia ser gratuito.
- “A fome faz repensar algumas convicções”. Algum tempo depois de se tornar mestre de karaté, convidaram-no para ser segurança. Foi segurança de discotecas e, mais tarde, foi convidado para ser guarda-costas. “Fui guarda-costas de algumas figuras conhecidas por esse mundo fora. Era contratado para fazer reforço de segurança, ou seja, em circunstâncias de perigo. Isso permitia-me trabalhar durante duas semanas, três semanas, um mês, a remunerações absolutamente impensáveis.”

Pedro Choy foi estudar para a Universidade de Coimbra e chegou ao 4º ano de Medicina mas depois interessou-se mais por um curso de Medicina Tradicional Chinesa, na Universidade de Marselha. Os outros dois irmãos são médicos e a irmã é bióloga sendo uma das mais reputadas investigadoras na área da genética.
Uma família de vencedores!
Talvez porque o pai sempre lhes tenha exigido o máximo, que fossem os melhores. Talvez porque cresceram a ver a mãe num empenho extraordinário para cuidar de quatro filhos numa terra estranha, onde era vista como um extra-terrestre.
Talvez porque sim, porque lhes está na massa do sangue.
Actualmente Pedro Choy tem 18 clínicas, espalhadas por todo o país, ostentando o seu nome, um nome que foi alvo de zombaria e que hoje é um nome de sucesso. Ninguém diria que o homem por detrás do nome nasceu pobre. Mas nasceu, muito pobre!
A prova provada de que é possível mudar o destino. Ou, como diz o provérbio chinês: “É melhor acender uma vela, do que amaldiçoar a escuridão.”

FONTE: Texto publicado na revista Nós, do jornal i, de Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Formiguinha

As formigas são uns bichinhos incomodativos quando nos invadem a cozinha ou os nossos alimentos.
Mas no outro dia, vi uma formiga que transportava uma grande folha que deveria ter, no mínimo, dez vezes o seu tamanho e, isso despertou-me a atenção por parecer que a folha caminhava sozinha…
A formiga carregava-a com enorme sacrifício, ora arrastando-a, ora colocando-a sobre a cabeça. Mas o pior, era quando o vento batia e a folha tombava, fazendo-a cair também, mas ela não desanimava e, aos tropeços, com uma obstinação fora do comum, caminhando, lentamente, até chegar à entrada de um buraco, que devia ser umas das entradas da comunidade.
Eu observava todo o processo e respirei aliviada por ver que ela tinha chegado,
finalmente, ao seu destino, terminando a pesada tarefa. Mas que ilusão a minha, porque afinal a folha era maior que o buraco, o que fez com que ela a largasse e entrasse sozinha.

Murmurei desanimada: - “ora vê tu, tanto trabalho e sacrifício para nada,agora tens de abandonar o teu fardo. Não vias que isso era demasiado grande e pesado para ti?” Mas enganei-me! Mal tinha terminado a frase e logo a seguir apareceram mais formigas, que começaram a cortar a folha em pedaços pequenos e, em pouco tempo, a grande folha desapareceu para dar lugar a pequenos pedaços que, por sua vez, desapareceram, rapidamente, dentro do buraco.

Fiquei ali, a pensar no esforço da formiga e no trabalho em equipa.
Quantas vezes desanimamos diante de certas tarefas ou dificuldades?
Se a formiga tivesse olhado para o tamanho da folha, se calhar tinha desanimado e não teria começado a transportá-la, foi por esta persistência e inegável força de
vontade que passei a admirar estas trabalhadoras, criaturas de Deus.
Quem me dera ser como a pequena formiga, ter aquela tenacidade para poder “carregar” as dificuldades do dia-a-dia, sem desanimar diante das quedas.
Quem me dera ter sempre a humildade para partilhar com os outros, o êxito da chegada, mesmo que o caminho tenha sido solitário, tal como a formiga teve inteligência para dividir em pedaços, o fardo que se lhe apresentou grande demais nunca tendo desistido do seu projecto, mesmo quando ventos contrários a fizeram cair e obrigaram a recomeçar, talvez pensando nos que dependiam dela, superou as adversidades e renovou as forças para prosseguir na sua árdua tarefa.

O que desta lição se conclui, é que os sonhos não morrem, apenas estão adormecidos na nossa alma.

NOTA: As pequenas formiguinhas, não são tão insignificantes como o seu tamanho o demonstra. Pelo contrário, são gigantes perante o trabalho e o sacrifícios na construção e manutenção da sua comunidade. Cientistas curiosos, decidiram descobrir até que ponto, seria feita a construção do seu mundo subterrâneo e para espanto de todos, apareceu uma maravilha escondida aos olhares dos humanos.
Raro exemplo de unidade, a qual muito temos de aprender...
Aqui fica o vídeo do youtube:

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pastel de Nata à Lord Stow em Macau


Para quem quer que viva ou visite Macau, certamente saboreou já o famoso pastel de nata, confeccionado desde 1989 em Coloane, por um farmacêutico inglês, que deu pelo nome de Andrew Stow, também conhecido por Lord Stow.

Pode não ser o genuíno pastel de nata português, mas que tem tido um enorme sucesso, isso ninguém pode negar.
Andrew Stow queria oferecer aos Portugueses algo que fosse genuinamente português, mas era demasiado orgulhoso para pedir a receita. Mas é certamente um caso de sucesso, não só em Macau, mas também em Hong Kong, Taiwan, Japão e Filipinas onde tem algumas filiais.
Andrew Stow, foi agraciado pelo Governo de Macau no dia 20 de Janeiro de 2006, com a Medalha de Mérito pelos bons serviços prestados ao Turismo da RAEM.

Esta é a foto de Andrew e da sua irmã Eileen Stow que nos relata esta história de sucesso:

Estava-se no final de 1978 quando, tendo-lhe sido recusado pelo patrão um aumento salarial, Andrew Stow encontrou num jornal de farmácia a oferta de emprego para o Extremo Oriente. Conseguiu o emprego imediatamente pois era o único candidato que sabia como utilizar uma máquina para a produção de comprimidos. Parecia que o destino lhe batia à porta, mas aonde ficaria, afinal Macau?

O ano de 1979 começou para Andrew Stow com um novo emprego como farmacêutico industrial, numa firma francesa chamada Laboratório Anglo-Francês. Fazia a pé o caminho de sua casa, no Bagiou Court, até ao laboratório, situado na Rua dos Pescadores.

Começou a aprender Português com a sua colega de trabalho, Isaura porque... ela não falava Inglês!...

Sendo o único jovem Inglês em Macau, Andrew tornou-se muito popular entre as jovens. Era um frequentador dos Crazy Paris shows no casino do Hotel Lisboa e conhecia muitas recepcionistas de hotel. Era um homem de carácter chamejante que adorava festas.

Algum tempo depois, o laboratório Anglo-Francês decidiu mudar as suas operações para os Estados Unidos, mas Andrew não queria mudar. Porquê mudar? Ele gostava era do ritmo de vida que Macau lhe oferecia.

Sem um sponsor, ele precisava de investir para poder ficar. A primeira ideia que lhe surgiu foi a Tropical Health Food, uma empresa de produtos dietéticos. Em 1984 iniciou o negócio, conjuntamente com a sua namorada local, Margaret, com quem viria a casar.

Andrew fez uso dos seus conhecimentos médicos para importar alimentos e suplementos alimentares de qualidade. Mas, este conceito de negócio estava 20 anos à frente do seu tempo. Andrew precisava de receitas regulares para poder manter a empresa.

Foi então que o destino lhe estendeu a mão por intermédio de Juan Pablos, Gerente Geral do Hyatt Regency Hotel, o qual convidou o Andrew para Gerente do Green Parrot Disco. Era a posição ideal para Andrew, a oportunidade de se tornar rei no seu próprio castelo.

Os residentes de Macau dessa época certamente se lembrarão de que, por meados dos anos 80, as melhores noites de Macau incluíam forçosamente jantar em Macau, umas bebidas no velho Hotel Bela Vista e uma corrida de taxi através da única (e vazia) ponte até à Taipa, onde a noite terminava no Green Parrot Disco – o melhor clube da cidade – com o Andrew ao leme.

Naquela época, os Portugueses chamavam a Andrew “Lord Stow”, devido a influência que tinha sobre a sua vida social: Poderão entrar? Poderão encontrar boas mesas? Será o Andrew discreto, se as esposas aparecerem subitamente?

Como estagiário de Hyatt, Andrew foi transferido para o restaurante Afonso e a sua alcunha “Lord Stow” aumentou de popularidade. Portugueses, Macaenses e Chineses gostavam do facto do restaurante ter um Inglês meio "surdo", como responsável. Ele não entenderia aquilo de que falavam. Mas Andrew acabou por conhecer os jovens e as jovens que viriam a ser o futuro da Sociedade e do Governo de Macau.

Os Stows gostam de ser patrões de si próprios e a lição da empresa de produtos dietéticos ensinou a Andrew que as senhoras gostam de pão de qualidade. A sua principal importação era farinha de trigo.
Com a ajuda dos seus amigos na padaria do Hotel Hyatt, o Andrew desenvolveu a sua própria receita para pão e bolos.

A Padaria “Lord Stow” em Coloane abriu as suas portas no dia 15 de Setembro de 1989. O Andrew apelidou-a com esse nome para toda a gente saber quem era o dono. “Nunca receies colocar o teu próprio nome por cima da tua porta” era o seu lema.

Pretendendo oferecer aos Portugueses expatriados uma especiaria nacional, Andrew desenvolveu a sua própria receita de Pastel de Nata. Mas Andrew não tinha a receita e misturou as coisas com ingenuidade Inglesa para obter a nata. “Ele estragou tudo!” disse o seu amigo Wilfred Picklemeyer, que ensinara a Andrew umas coisas básicas sobre pastéis.

Mas a história terminaria por mostrar que o Andrew acabava de criar uma receita que se tornaria num êxito em toda a Ásia e um ícone para Macau.

Infelizmente, Andrew faleceu subitamente nos fins de 2006, devido a asma, com a idade de 51 anos. Macau perdeu assim um homem de carácter, que será lembrado não só localmente, mas também além dos confins da comunidade expatriada.

Entretanto, a presença do Andrew permanece em cada pastel de nata confeccionado em Coloane e consumido em Macau diariamente. É o seu legado para Macau que ele tanto amou e disse que nunca abandonaria.

É assim o destino! Bem haja o sumítico patrão inglês que lhe recusou o aumento salarial em 1978!