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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Traz-me um girassol


Traz-me um girassol para que cresça
no meu árido terreno e se mostre todo
o dia ao espelho azul do céu,
Mata assim a ansiedade do meu rosto
pleno de esperanças.

Traz-me tu a planta que tanto me seduz
e onde crescem loiras transparências
Ah, como se evapora a vida na sua essência.

Traz-me um girassol de
enlouquecidas luzes amarelas.
Traz-me vida
na vida do Girassol!


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhando o Passado...



Olhando para o passado encontrei
sentimentos misturados.

Saudade, amizade, paixão,
carinho, amor, ternura.
Vazios de alguns dias, plenitude de outros.

Lembrei-me de conversas tolas,
dos sorrisos cúmplices, do acto de compartilhar.
Dos amigos, da família, dos locais da minha infância…

Tentei sorrir como noutros dias,
mas não consegui parar de pensar,
no que hoje sou, no que me tornei...
das lutas, alegrias, desgostos,
E, porque estou tão longe de tudo o que amei?

Longe e perto ao mesmo tempo,
são dos momentos simples, que mais sinto falta.
Continuo na busca em aprender a conviver
com a realidade.
Longe de tudo o que me foi querido,
tento agora fazer desta saudade uma arte.

A arte de sentir a brisa, de sentir o sol de inverno,
de ouvir a chuva cair, de olhar o céu e
sentir ainda vivas as lembranças,
porque o meu coração está nas mãos
da saudade.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia do Teatro

Hoje é o dia de lembrar duas classes das artes cénicas: no âmbito nacional, a vez é do circo, lugar onde é possível desfrutar momentos agradáveis proporcionados por palhaços, malabaristas, acrobatas, equilibristas e toda a magia que vem dos intrigantes truques dos ilusionistas.
Mas o dia 27 de Março, é um dia dedicado ao teatro em todo o mundo e ao seu conjunto complexo de profissionais, que actuam nos palcos e bastidores, com o intuito de provocar no público os mais diversos sentimentos.
O Teatro nasceu de uma civilização antiga, em Atenas, associado ao culto de Dionísio, divindade da vegetação, da fertilidade e do vinho, cujos rituais tinham um carácter orgiástico.
As representações teatrais tinham lugar em recintos ao ar livre, construídos para o efeito.

Os teatros gregos tinham tão boas condições que os espectadores podiam ouvir e ver, à distância, tudo o que se passava em cena, mesmo tratando-se de uma assistência muito numerosa. Isso devia-se, por um lado, ao facto de as bancadas se abrirem em leque sobre a encosta de uma colina e, por outro lado, a diversos artifícios utilizados em cena.
Os actores usavam trajes de cores vivas e sapatos muito altos para ficarem com uma estatura imponente. Cobriam o rosto com máscaras, que serviam, quer para ampliar o som da voz, quer para tornar mais visível à distância, a expressão do personagem.

Um aspecto curioso é que, em cada peça, só existiam três actores, todos do sexo masculino. Cada um deles tinha que desempenhar vários papéis, incluindo os das personagens femininas. A representação dos actores, em cena, era acompanhada pelos comentários do coro, que se movimentava na orquestra, juntamente com os músicos.
Havia dois géneros de representações: a tragédia e comédia.

As tragédias eram peças ou representações que pretendiam levar os espectadores a reflectirem nos valores e no sentido da existência humana.
As comédias eram, por sua vez, peças de crítica social que retratavam figuras e acontecimentos da sociedade da época, ridicularizando defeitos e limitações da actuação dos homens, provocando o riso na assistência.
O mais conhecido autor de comédias da Antiguidade, foi Aristófanes. De entre inúmeras outras peças suas, destaca-se "A revolução das mulheres", que faz uma sátira aos costumes políticos e às diferenças entre os sexos.
Outro género teatral muito difundido é o drama, que nasceu no século 18, em França e que leva ao palco, situações quotidianas e conflitos de pessoas comuns.

Monta-se um palco de vozes,
de gestos e alegorias
onde actuam actores e mimos
com as suas fantasias
e onde o velho Gil Vicente
faz questão de estar presente
representando os seus autos
ali mesmo à frente,
que o teatro é a magia
da palavra transformada
em sonho e em poesia
com a varinha encantada
de uma tragédia antiga
em que Romeu e Julieta
entoam uma cantiga
tão suave e tão secreta
que mais parece um madrigal
onde se canta o amor
em toada teatral,
nesse palco iluminado
de uma história intemporal.

José Jorge Letria
in "O livro dos dias"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia da Poesia

Todas as linguagens têm a sua poesia. A poesia contribui para a diversidade criativa, usando as palavras e os nossos modos de percepção e de compreensão do mundo.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se hoje, dia 21 de Março e foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO a 16 de Novembro de 1999.
É um dia que celebra assim, a diversidade do diálogo, a livre criação de ideias através das palavras, criatividade e inovação.
Habitualmente este dia é comemorado em todo o mundo e também em Portugal, com várias iniciativas e eventos, tais como feiras do livro, concursos de poesia, recitação de poemas e outras iniciativas de cariz cultural.
Esta celebração faz ainda uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa.
Deixo aqui um poema de um dos poetas meus favoritos: Fernando Pessoa do “Cancioneiro”:

Tenho Tanto Sentimento

Tenho tanto sentimento,
que é frequente persuadir-me
de que sou sentimental.
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isto é um pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos os que vivemos,
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é, a verdadeira
e qual a errada,
Ninguém nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
é a que tem que pensar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Algumas quadras do poeta António Aleixo


Lembremos o poeta António Aleixo, cauteleiro e pastor de rebanhos, cantor popular que ia de feira em feira, pelas redondezas de Loulé ( Algarve - Portugal) é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia. Aqui ficam algumas quadras:

Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.

Os que bons conselhos que dão,
Às vezes fazem-me rir
por ver que eles mesmos,
são incapazes de os seguir.

Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar... acaba!

O que caracteriza a poesia de António Aleixo, é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens, que infelizmente estão sempre actuais.
Os motivos e temas de inspiração são bastantes variados. Não sendo um revoltado, acaba por desabafar na sua poesia, todo o sofrimento provocado por certas injustiças, como se pode apreciar nestas quadras.

E aqui fica um conselho do sábio poeta:

O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Divagações outonais

Estes dias o outono, traz ainda reminiscências do estio.
Nos dias abafados de intensa humidade, sinto saudades do frio...
À memória, surge-me a minha casa antiga, a infância, o chá e do bolo caseiro feito pela tia, um certo aconchego apegado à recordação das pessoas e dos lugares, ao sentido humano dos dias, à temporalidade, à alma que habita em certos objectos; o silêncio, a rotina como um milagre revisitado, a estranha a sensação de imergir de um sonho repetido...
Ah sim, o cansaço dos dias rotineiros, que afinal passam depressa demais. A sensação vaga de que nos escapa o sentido das coisas, ou a verdade da nossa real dimensão. O que somos, talvez e apenas, fragmentos de história, que apanhamos no caminho, com a ingénua esperança de que, na meta, o conjunto de estilhaços nos permita uma compreensão abrangente dos dias em que nos gastamos, e depressa chegamos ao outono, que antecede o inverno, onde tudo acaba, para renascer na próxima estação....


É na força do Outono,
Que as folhas, ao abandono
Vão perdendo o seu caminho.
Solto a minha vida ao vento
Esperando pelo tempo
Que chegue mais devagarinho.

Deixo a saudade passar
Ninguém a pode encontrar
Para não ver a minha dor.
Deixo que o tempo frio
Leve para longe o vazio
E traga em mim, o calor.

Esperando um novo dia
Espero que ao meio dia
O sol me venha aquecer
Sem querer pensar em mim
Quero gritar ao mundo sem fim
Como é bom saber viver...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Saudade...



Saudade!
O que será? não sei... procurei sabê-lo,
em dicionários antigos e poeirentos.
e noutros livros,
onde não achei o sentido desta doce palavra,
de perfis ambíguos.

Saudade... oiça, vizinho,
sabe o significado,
desta palavra branca,
que se evade como um peixe?
Não... agita-se na boca,
no seu tremor delicado,
a palavra
saudade...

- Pablo Neruda -

quarta-feira, 25 de maio de 2011

África - Carta de um Contratado


O continente africano acolhe uma grande variedade de culturas, caracterizadas cada uma delas por um idioma próprio, tradições e formas artísticas características.
África é o segundo maior continente da Terra e conta com uma população de mais de 820milhões de habitantes. Possui uma incrível diversidade cultural e ambiental, com patrimónios históricos e naturais.
Hoje, é o DIA DE ÁFRICA, não queria deixar de prestar homenagem a um poeta que muito admiro: António Jacinto, que nasceu em Angola e que é um reconhecido poeta que se tornou conhecido através da sua escrita de protesto.

Devido à sua militância política anti-colonialista e de base marxista, foi exilado no Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, no período de 1960 a 1972. Voltou para Angola em 1973, e juntou-se ao MPLA [Movimento Popular de Libertação da Angola].
Escolhi este seu poema,porque é um dos mais expressivos da sua obra, como quiçá, de toda a literatura angolana.

CARTA DE UM CONTRATADO

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma cara
amor
uma carta de confidências íntimas
uma carta de lembranças de ti
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses do papá Bombo
que a sonegasses à mãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que te levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levasse puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...
Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

António, foi empregado de escritório e técnico de contabilidade, Ministro da Educação de Angola e Secretário de Estado da Cultura.
Colaborou com produções suas em diversas publicações nomeadamente Jornal de Angola, Notícias do Bloqueio, Itinerário, Império e Brado Africano e foi membro da revista Mensagem.

BAILARINAS

A noite
(uma trompete, uma trompete)
fica no jazz.

A noite
sempre a noite
sempre a indissolúvel noite
sempre a trompete
sempre a trépida trompete
sempre o jazz
sempre o xinguilante jazz.

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão.

Amor,
vénus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto,
o ritmo no longe
preênsil endoudece.

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.

António Jacinto é considerado, por muitos, um dos maiores escritores angolanos.
Com a independência do país, frente à colonização portuguesa em 1975, foi nomeado Ministro da Educação e Cultura, cargo que ocupou até ao ano de 1978.

Arrebatou vários prémios, como o Prémio Noma, Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos e Prémio Nacional de Literatura.
Publicou Poemas(1961), Vovô Bartolomeu (1979), Poemas (1982, edição aumentada), Em Kilunje do Golungo (1984), Sobreviver em Trrafal de Santiago (1985; 2ªed.1999), Prometeu (1987), Fábulas de Sanji (1988).

Morreu a 23 de Junho de 1991, com 67 anos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O convertido

Estamos em plena Quaresma e, escolhi este autor, porque me faz lembrar que o Evangelho interpela em cada um de nós: "Tu crês no filho do Homem?"
-"Creio Senhor!" (Jo9, 35.38) - afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes...
Na verdade, Deus fez-se Homem, para que os homens de tornassem filhos de Deus, se divinizassem para serem herdeiros do Céu.
Claro que, para conquistar o Céu, é preciso prepararmo-nos para as realidades eternas e passar, antes da ressurreição, pela "cruz" do dia a dia.

Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza…
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento…
Só me falta saber se Deus existe

Antero de Quental

quarta-feira, 16 de março de 2011

Adeus...

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente, tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza,
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti,
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus...

De: Eugénio de Andrade
Do livro "Poemas 1945 - 1965", 3ª edição, 1971.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os Filhos...


Os vossos filhos
Não são vossos filhos:
São filhos e filhas
Do chamamento da própria Vida.

Vêm por vosso meio
Mas não de vós;
E apesar de estarem convosco,
Não vos pertencem.

Podeis dar-lhe o vosso amor;
Mas não os vossos pensamentos:
Porque eles têm pensamentos próprios.

Podeis acolher os seus corpos;
Mas não as suas almas:
Porque as suas almas
Habitam a casa de amanhã
Que não podeis visitar,
Nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles;
Mas não tenteis fazê-los como vós.
Porque a vida não vai para trás,
Nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos
As setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
E reteza-vos com o seu poder
Para que as setas
Possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
Seja de alegria.

Porque assim como Ele gosta
Da seta que voa,
Também gosta do arco que fica.
Khalil Gibran
O Arqueiro - pintura feita pelo próprio Khalil Gibran
Escolhi este poema, primeiro porque é o meu favorito e depois porque cada vez mais sentimos que os filhos se afastam dos pais, e que a nossa missão é apenas de os colocar no mundo e… rapidamente deixamos de fazer parte do mundo deles.
Este poema parece vir ao encontro das nossas dúvidas e anseios.
Este autor “aconteceu-me” como tudo me tem acontecido na vida — por destino, por acaso, por qualquer lei cuja origem e fundamento ignoro e me faz tropeçar muito de vez em quando, ao longo da minha viagem pela estrada da poesia, na beleza que em forma de verso bate no rosto do mundo.

A extrema elevação espiritual de Gibran encontram-se apenas nos eleitos que nos dão uma visão deslumbrante da vida e das coisas mais nobres entre o homem e Deus.
- “É o coração que sente a Deus e não a razão” (Pens., 278), disse arriscadamente Pascal, já que o coração tem razões que a razão desconhece e assim, apesar da indiferença e às vezes o desprezo que muitos filhos sentem pelos seus progenitores, o que mais desejamos é que os nossos filhos encontrem de facto o verdadeiro caminho do bem e consigam caminhar pela vida de cabeça erguida, será essa a nossa recompensa.

Khalil Gibran foi um pintor e poeta libanês (1883-1931) que repartiu a sua vida pela Palestina, Grécia, Itália, Espanha e França. Conviveu com muitas celebridades que lhe deram uma visão mais ampla do mundo. A sua cultura e sensibilidade fizeram dele um autor que acreditava não haver fronteiras entre o poético e o sagrado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Nada sei...


Não me perguntes,
porque nada sei,
da vida,
nem do amor,
nem de Deus,
nem da morte.

Vivo,
amo,
acredito sem crer,
e morro antecipadamente,
ressuscitando!

O resto,
são palavras,
que decorei
de tanto as ouvir.

E a palavra,
é o orgulho do silêncio envergonhado.

Num tempo de ponteiros
agendado,
sem nada perguntar,
vê sem tempo,
o que vês acontecer.

E, na minha nudez,
aprende a adivinhar
o que de mim não possas entender.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

José Régio, professor/poeta

Dizem que, era assim que este professor ia de terra em terra, numa constante procura por objectos de arte, principalmente de arte popular e interessando-se por tudo o que é original, que mais tarde, doou todas essas peças à Câmara de Portalegre e que, hoje, estão expostas no Museu José Régio.

Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO, Soneto escrito em 1969, no dia de uma reunião de antigos alunos).
Tão actual em 1969, como hoje...


Foi possivelmente o único escritor em língua portuguesa a dominar com igual mestria todos os géneros literários: poeta, dramaturgo, romancista, novelista, contista, ensaísta, cronista, jornalista, crítico, autor de diário, memorialista, epistológrafo e historiador da literatura, para além de editor e diretor da influente revista literária Presença, desenhador, pintor, e grande colecionador de arte sacra e popular. Foi irmão do poeta, pintor e engenheiro Júlio Maria dos Reis Pereira.O professor Reis Pereira (1901 - 1969), chegou a Portalegre em Outubro de 1929 para ensinar Português e Francês. Em vésperas de partir, escreve a um seu amigo: - "Ai de mim! parto amanhã para Portalegre! Parece que fica lá para o coração do Alentejo" (...) (...) Que gente lá irei encontrar, Santo Deus!"
Naturalmente encontrou muito boa gente porque, em Portalegre, acabou por permanecer mais de 30 anos, desenvolvendo a par do ensino e da escrita, o interesse por objectos de arte.
É considerado, por alguns, como um dos vultos mais significativos da moderna literatura portuguesa. Recebeu, em 1961, o prémio Diário de Notícias e, postumamente, em 1970, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.
A cidade de Portalegre, comemorou em Fevereiro deste ano, os oitenta anos da sua chegada, promovendo encontros com amigos, conferências, exposições, recitais de poesia, visitas culturais e pedagógicas, para recordar este singular poeta.

José Régio e o tempo:
Não te desejo um presente qualquer,
Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.
Desejo-te tempo, para te divertires e para sorrir;
Desejo-te tempo para que os obstáculos sejam sempre superados
E muitos sucessos comemorados.
Desejo-te tempo, para planear e realizar,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,
Desejo-te tempo para te encontrares,
Desejo-te tempo, não só para passar ou vê-lo no relógio,
Desejo-te tempo, para que fiques;
Tempo para te encantares e tempo para confiares em alguém.
Desejo-te tempo para tocares as estrelas,
E tempo para crescer e amadurecer.
Desejo-te tempo para aprender e acertar,
Tempo para recomeçar, se fracassares...
Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar.
Desejo-te tempo, para ter novas esperanças e para amar.
Não faz mais sentido protelar.
Desejo-te tempo para ser feliz.
Para viver cada dia, cada hora como um presente.
Desejo-te tempo, tempo para a vida.
Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!

Como escritor, José Régio é considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa. Reflectiu em toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade. Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas ao mesmo tempo que levava a cabo uma dolorosa auto-análise, alicerçou a sua poderosa arte poética na tríplice vertente do autobiografismo, do individualismo e do psicologismo. Seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou também o seu talento para as artes plásticas ilustrando os seus livros.

CÂNTICO NEGRO
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Aqui fica o pequeno retrato de um dos meus autores preferidos, que mostra a dimensão do Homem-Artista, uma das mais lúcidas consciências literárias do seu tempo.
Possuidor de uma sensibilidade rara, deixou nos múltiplos vectores da sua actividade intelectual, as marcas inconfundíveis do seu talento criador e da firme personalidade que o caracterizava.
As suas casas de Vila do Conde e de Portalegre são hoje museus.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Os noivos

A noiva passa rindo
De rosas coroada,
Como um botão surgindo
À lua da madrugada.

Na fronte imaculada,
O véu lhe desce lindo,
E a brisa enamorada
Lhe furta um beijo infindo...

Ante o altar se inclina
A noiva, e, purpurina,
Murmura a medo "Sim".

Agora é noite; a Lua
No céu flutua,
E o noivo diz: "Enfim!"

(Gonçalves Crespo)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Vimos chegar as andorinhas

Vimos chegar as andorinhas!
Conjugarem-se as estrelas,
impacientarem-se os ventos...
Agora,
esperemos o verão do teu nascimento,
Tranquilos, preguiçosos...
Tão inseparáveis as nossas fomes,
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos.
Espera-te um nome,
breve, como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás,
como a luz maior
no solstício de Junho.

Rosa Lobato de Faria
A Gaveta de Baixo, Edições ASA, 1999 - Porto, Portugal

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Solidão


Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.

Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.

Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.

Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida.

Fernando Pessoa

Nos momentos onde a solidão parece esmagar toda a beleza,
todos os sonhos, a única maneira de resistir,
é continuarmos abertos para a intensidade da vida,
porque muitas vezes, estar só, é apenas um modo de sentir.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Esboço...


Sentado...
Olhar vago;
Cigarro que se gasta... em vão.
O poema amor,
Baila-te na solidão.

Ansiedade tem-te amarrado
Nessa mesa que é destroço.

Deixa-me amar-te...
Deixa!
Deixa-me fazer o teu esboço.

O cigarro gastou-se!
Como algo muito e irreal e puro
A imagem diáfana e doce,
Brilhou e esfomou-se.

Deixa-me secar o orvalho dos teu olhos
e depôr neles,
O perfume da esperança.

Deixa-me transformar os teus braços
em dois ciprestes
Pô-los à volta do meu pescoço
E... ter a sensação de ser EU!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Flor...


Como uma flor incerta nos meus dedos
Há a harmonia dum bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.

Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mas sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.

Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.

Sophia M.B.A

As flores perfumam até as mãos de quem as esmagam...
Depende de nós que o sonho exista ou não. Feliz daqueles que caminham em direcção ao sonho em que tem fé. Um ser sem sonhos, caminhando indeciso, é como uma flor seca levada ao sabor do vento...

sábado, 26 de setembro de 2009

Desabafo...



Já vi o céu, já vi a lua,
As estrelas e o luar.
Já vi montes e montanhas,
Rios, lagos e lagoas,
Oceanos e mares.

Já admirei pinturas,
Esculturas e museus,
Igrejas e mausoléus.
Já convivi com ricos,
Pobres e até indigentes,
Com ateus e descontentes,
Com crentes e indiferentes.
Já vi de tudo em geral!
Mas é pouco positivo o meu exame final.

O Mundo está em mutação,
O ar é irrespirável,
A água poluída,
A Humanidade desunida,
E o amor… já não é igual.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Noiva


Ei-la toda de branco! Aos pés, o imenso véu
como em flocos de espuma, espalhado no chão...
No ar, dentro do olhar, cabe inteirinho um céu,
e leva um céu maior dentro do coração...

Nos lábios... Ah! nos lábios o sabor do mel,
e uma carícia em flor se entreabre em cada mão,
- e que tremor no braço, ao deixar no papel
o nome dela, o dele... os dois desde então...

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela, é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela, que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio".
Alberto Caeiro

Quantas pessoas vão e vêm, entram nas nossas vidas, causam emoções, danos ou surpresas...
Mas todo o ser humano anseia pela sua "metade", por compreensão, carinho, partilha, companheirismo... poucos são os que chegam ao fim da caminhada juntos, mas o casamento é sempre uma esperança, uma procura da porta aberta para a suposta felicidade...