terça-feira, 6 de setembro de 2011

O que a dor ensina...

Como a fé, a esperança e o amor pela família, podem "matar" um cancro... Começou por se sentir cansada. Subia um lanço de escadas e parecia que tinha corrido a maratona. Não ligou. Andava, talvez, a trabalhar demais; ser professora universitária pode ser esgotante, talvez precisasse de vitaminas, talvez fosse carência de sol, muita chuva e mau tempo nos ossos. Havia de passar. Mas não passou.
Um dia, levava dois sacos do supermercado, um em cada mão, e sentia que os braços se iam arrancar pelos ombros. Não havia de ser nada. – pensou- Tinha feito análises há menos de três meses e estava tudo bem; se calhar, andava a dormir mal; se calhar, era só a idade, que isto já se sabe, o corpinho não é o mesmo aos 18 e aos 43 anos, o tempo faz a sua mossa. Havia de passar.

Mas não passou. Em Março de 1999, Otília Pires de Lima suspirava dezenas de vezes ao dia de cansaço. Estacionar só se fosse de frente. Manobras estavam completamente fora de questão. Às vezes, até lhe apetecia seguir com o carro a direito, afastando-se do seu destino, só para não ter de fazer força com os braços para virar o volante para a esquerda ou para a direita. Estava exaurida.
Por sorte (ou porque o destino decidiu dar uma mãozinha), uma perda de sangue entre duas menstruações, levou-a ao ginecologista para ver se estava tudo bem.
O médico, ao fazer uma ecografia, encontrou um quisto de seis milímetros num ovário e explicou que teria de ser removido. Para isso, era necessário fazer novas análises.
Otília há-de ter protestado um bocadito, que tinha uma colheita de sangue feita há menos de três meses, não era preciso outra, que maçada, mas o médico insistiu e ela lá foi, até porque estava mais aliviada por ter encontrado (julgava ela) a razão do seu cansaço.
Por sorte também (ou porque o destino estava mesmo decidido a dar um empurrão), Otília andava a ouvir uns barulhos tenebrosos no interior da sua cabeça e marcou uma TAC (tomografia axial computorizada).
- “Eu ouvia martelar dentro da minha cabeça. Mas era um martelar tão claro, que durante algum tempo eu achava que havia obras no andar por cima do meu. Até cheguei a insultar, entredentes, o pobre do vizinho por estar a fazer obras à meia-noite. Depois, percebi que as obras estavam dentro da minha cabeça e decidi ir ver o que era aquilo.”
No dia 19 de Maio de 1999, o dia do 21.º aniversário da sua filha, Otília tinha dois afazeres importantes: ir buscar as análises e fazer a TAC.
Quando chegou ao laboratório, não foi a recepcionista quem lhe deu o resultado. Um enfermeiro de ar grave disse-lhe:
-“A senhora tem de ir já para o hospital. Está com 6 de hemoglobina! [O normal são 12 a 16g/dl].»
Otília riu-se: - “Que disparate, vou lá agora para o hospital! Hoje é o aniversário da minha filha, tenho é de me despachar que ainda tenho muito que fazer.”
O enfermeiro persistiu, que era o melhor, que os resultados não estavam bons, que tivesse cuidado, com a saúde não se brinca. E ela sim, sim, pois claro, amanhã ligo ao médico, não se preocupe.
Saiu do laboratório extenuada e foi fazer a TAC, marcada para esse dia. Quando chegou, desmoronou numa cadeira, arfando. A recepcionista perguntou:
_ “Está em jejum?” Otília disse que não e a recepcionista retorquiu:
- “Ah, então não vai poder fazer o exame. Tem de ser em jejum”
Otília soltou uma gargalhada das suas:
-“Olhe, então não vou fazer isto nem hoje, nem nunca. Se eu depois de ter comido me sinto assim, sem forças, imagine que estava em jejum! É que nem conseguia cá chegar!”
A recepcionista ficou pensativa.- “A senhora está tão branca …”
E, alarmada, chamou a médica. Foi então que ela desabafou que tinha ido pouco antes buscar o resultado das análises e que estava com 6g/dl de hemoglobina. A médica arregalou os olhos, fez-lhe a TAC e repetiu as mesmas palavras do enfermeiro do laboratório:
- “A senhora tem de ir para o hospital e é já. Ligue ao seu médico, vai ver que ele lhe diz o mesmo”
Otília mal conseguia marcar os números no telemóvel, mas ligou ao Prof. Ricardo Jorge. Do outro lado da linha, mais do mesmo. –“Mas, ó doutor, eu tenho de ir para casa fazer bacalhau com natas! É o aniversário da minha filha …”
Já não foi! Quando chegou ao Hospital São Francisco Xavier, trataram-na como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer instante. Deite-se, não fale, não se mexa. O médico, seríssimo, a decidir:
- “Vai ter de ficar internada!” Otília respondeu: - “Ok. Eu fico cá, mas tenho de ir lanchar com a minha filha!”
A enfermeira que estava ali ia abrir a boca, mas a doente espetou-lhe um dedo no nariz: -“E isto não é negociável!”
Ela não sabe explicar o que sentia, mas era como se tudo aquilo fosse uma ridicularia sem sentido. Tanta histeria à sua volta parecia-lhe uma piada. Achava graça ao modo como todos se agitavam em seu redor, aos gestos nervosos, às vozes de comando dos médicos, à ansiedade dos enfermeiros. Nem lhe passou pela cabeça que aquilo só podia ser muito mau sinal. Estava divertida, em suma, como uma tonta. – “Não me perguntem porquê, mas era como se não fosse nada comigo. Estive o tempo todo a fazer piadas.”

Otília não tinha vaga num quarto e, por isso, puseram-na numa maca no corredor de obstetrícia. Achavam que talvez fosse um problema ginecológico, porque ela mencionou o quisto. Novas análises e a hemoglobina estava ainda mais baixa.
As horas foram passando e, a certa altura, uma auxiliar veio perguntar-lhe se já tinha nascido o seu bebé. Como era o dia de aniversário da filha, que tinha nascido às 21.40, respondeu:
- “Sim, já nasceu. É uma menina com 3,650 kg.” A empregada deu-lhe uma festa, disse parabéns, e perguntou: - “E quando foi?” Otília replicou, então com a mesma naturalidade: - “Foi há 21 anos.”
Outro dos episódios que recorda, divertida, é aquele em que um médico aparece no corredor aos gritos: -“Otília Pires de Lima? Quem é Otília Pires de Lima?”
Ela levantou o braço. O homem, corado e nervoso, levantou-lhe o lençol:
- “A senhora está a sangrar de onde?” Ela encolheu os ombros: - “Eu? Eu não estou a sangrar de lado nenhum!”
O médico estava uma pilha: -“A senhora tem de estar a sangrar de algum lado! Com estes valores, tem de estar a perder sangue por algum lado!” Mas a sua pesquisa não detectou hemorragias, e Otília continuava alegre, como se tudo não passasse de uma brincadeira.
Uma semana depois, foi transferida para o Hospital Garcia de Orta, e nem quando viu a placa a dizer “Hemato-oncologia” se deu conta do que lhe estava a acontecer.
–“Nada me atingia, era tudo como se não fosse comigo, e eu até hoje não sei explicar como e porque é que eu reagi assim.” Só quando uma manhã a médica chega de semblante carregado e lhe diz que se confirmaram as piores expectativas, e pronunciou a palavra, impronunciável, “leucemia”, só aí é que lhe caiu a ficha. O céu desabou sobre a sua cabeça. Queria saber tudo: quais os prognósticos, o que se seguia, o que fazer?
Mas quando a médica lhe perguntou, assim de chofre, se queria mesmo saber tudo, Otília estacou. Não! Era melhor não. E se lhe determinavam um limite? E se lhe diziam: tem um ano de vida? Seis meses? Não. Não queria viver a prazo. Não queria ficar condicionada por uma validade que lhe impunham. Por isso, levantou a mão e declarou:
- “Não. Não quero saber nada.” Quis ficar sozinha. E nesse instante desvairou. Andou pelo quarto como louca. Levou as mãos à cabeça, viu a vida deslizar-lhe à frente dos olhos. E foi nesse filme da existência que parou. Deixou de respirar por segundos. E disse em voz alta para consigo mesmo: - “Não. Eu não posso morrer. Eu não vou morrer disto. Eu não vou fazer isto aos meus pais.”
Otília tinha 43 anos, dois filhos e um pai e uma mãe que já tinham perdido quatro filhas. Ela era a quinta e última descendente e não podia morrer-lhes também.
– “Claro que pensei nos meus filhos, e no quanto os amava, e no quanto não queria deixar de os ver. Mas naquele momento foi nos meus pais que pensei: como é que eu podia morrer também? Como é que eu lhes podia fazer uma coisa dessas? E então soltou-se um grito dentro de mim: Não! Eu não ia morrer, era o que faltava! Eu ia lutar com todas as minhas forças. E ia ganhar.”

Em momento algum fez a pergunta típica: porquê eu? – “Perguntei para quê, e não porquê. Percebi que havia um motivo, uma razão. Que havia uma lição a tirar, de certeza que havia. Não tive raiva, não me revoltei. Aceitei, respeitei e decidi lutar, com a certeza de que ia vencer.”
Já refeita do choque, chamou a médica e disse: - “Vamos lá a isto, então. Primeiro ponto: eu não admito ninguém a olhar para mim com pena. Não sou uma coitadinha. Outra coisa: quero poder controlar as visitas. Não quero ninguém ao pé de mim que seja pessimista. Num momento tão decisivo, em que estou tão frágil, não quero que venham para aqui carregar-me negativamente.”
A médica sorriu, contente com a determinação, mas provavelmente sentindo desconsolo. As estimativas para Otília não podiam ser piores: a equipa dava-lhe quatro semanas de vida, mais coisa menos coisa. Não lho disseram porque ela pediu que não dissessem. Mas era esse o seu prazo.
Os tratamentos começaram de imediato. E as análises. E os exames. E todo um batalhão de “torturas” a que o seu corpo foi sujeito. Ao todo, fez 19 mielogramas (punção da medula óssea). Furaram-na 11 vezes para meter o cateter. Mas Otília aguentava tudo quase sem um ai.
- “Tinha uma enorme resistência à dor, que tinha que ver com a minha aceitação. Tenho a certeza! O Prof. Manuel Abecasis dizia que um estado de espírito optimista cria resistência à dor. E a verdade é que eu nunca senti uma dor insuportável. Minto. Um dia, decidi que queria anestesia para me darem um pontinho na zona onde tinha estado o cateter. A médica disse que não era preciso, que eu já tinha aguentado tanta coisa pior, que aquilo era só um pontinho. E eu não aceitei aquilo sem anestesia, estava com medo, estava crispada. Conclusão? A agulha chegou a entortar! A médica só dizia que eu tinha pele de cão. Esta era a prova: a não-aceitação. Se aceitarmos, o nosso corpo, como que se abre. E permite. E não dói." Otília Pires de Lima esteve um ano em tratamentos. Precisava de um dador, mas não havia nenhum compatível e ela não tinha tempo para esperar. Então, tentaram o auto-transplante. Mas as suas células não eram suficientes. Com o cenário mais negro, era ela quem tranquilizava os filhos, os pais, era ela que fazia humor com a situação, como se fosse uma brincadeira. Dizia coisas como:
-“Já viram a minha sorte? Tenho um cancro que não me vai deixar mutilada. Aqui não há nada para cortar. É o sangue. Ou se regenera ou não se regenera. E vai ficar tudo bem.” Para ela, a leucemia não era um agressor. Era um professor. “Aprendi a aceitar a leucemia, e mais: aprendi a amá-la. Ela veio para me ensinar qualquer coisa. Eu meti isto de tal modo na cabeça que, quando me caiu o cabelo, chorei, mas de felicidade. Porque eu acreditava que estava ali para aprender. E que aquela Otília tinha de morrer para nascer uma nova. E personalizei no cabelo, essa pessoa que tinha de morrer. De maneira que comecei a desejar que isso acontecesse. E quando caiu, chorei de alegria.”
O filho, então com 17 anos, foi-se abaixo. No dia em que ela chegou a casa com o lenço na cabeça, deitou-se na cama, chamou-o e disse-lhe: -“Meu querido, eu não quero ter de andar com isto na cabeça aqui dentro de casa. Tenho umas peladas horríveis, isto não é bonito, mas eu quero estar à vontade. E nós somos mais do que cabelo.”
O filho puxou-lhe o lenço, olhou-a, deu-lhe um beijo na cabeça e murmurou: -“Tu és bonita de qualquer maneira, mãe.”
A 12 de Outubro de 2000, os médicos deram-lhe a boa nova: era como se tivesse feito o autotransplante. Estava bem. Tinha alta. Eles não sabiam explicar como, mas Otília venceu.
- “Foi dos dias mais felizes da minha vida.” Neste processo, Otília Pires de Lima descobriu a sua, a nossa, filiação divina.
- “Se somos filhos de Deus, herdámos-lhe o ADN. E se ele é uma força de amor incondicional, nós também temos esse poder. E podemos exercê-lo. Devemos exercê-lo.”
A aprendizagem foi uma aprendizagem de amor. Otília aprendeu a amar-se em primeiro lugar. Só depois aos outros. –“Disseram-nos que é pecado colocarmo-nos em primeiro lugar. Pecado é não nos amarmos. Pecado é não nos perdoarmos. Se não nos amarmos, quem é que o vai fazer? Passamos a vida a ouvir os conselhos dos outros e raramente perdemos tempo a escutar-nos a nós, ao que diz o nosso instinto.”
Foi justamente para espalhar esta lição, que aprendeu da pior maneira, que Otília Pires de Lima escreveu o livro Viver de Amar (Papiro Editora). Porque acredita que o Universo nos dá sinais que nós, por estarmos demasiado ocupados ou por não querermos ver, não vemos. Não é preciso chegar ao estado a que ela chegou para aprender a lição.
O problema é que nós aprendemos mais depressa com o sofrimento do que com a alegria, com a bonança. E este livro era a sua missão! Serve para ajudar as pessoas a amarem-se, a confiarem mais em si mesmas. Ela sentiu que de repente a vida não era nada, mas também teve o privilégio de vencer, e de finalmente sentir a necessidade de ajudar outras pessoas a vencerem também.
Aqui fica esta história de vida, para dar esperança àqueles que desanimam, àqueles que desistem de lutar, àqueles que não acreditam que, “nada acontece por acaso, nem ao acaso”.

NOTA:
Este acto de amor para com os outros, não se ficou apenas na partilha desta experiência com outras pessoas que sofrem de cancro. O livro foi lançado e Otilia ofereceu na íntegra, a receita dos direitos de autor à Associação Portuguesa contra a Leucemia e ao Serviço onde esteve internada.
Quando o livro "Viver de Amar" for publicado no estrangeiro, a receita reverterá, também na íntegra, para a investigação do Genoma Humano, no intuito de ajudar a que mais ninguém precise pagar tão alto preço para nascer de novo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O valor de um especialista

Ganha-se pelo que se SABE e não apenas pelo que se faz...

Algumas vezes é um erro julgar o valor de uma actividade só pelo tempo que leva a realizá-la... Um bom exemplo diiso, foi o caso de um engenheiro, que foi chamado para arranjar um computador muito grande e extremamente complexo de uma empresa, um computador que valia alguns millões de euros. Sentado em frente do ecrã, carregou numas poucas de teclas, abanou lentamente a cabeça, murmurou qualquer entre dentes para si próprio e finalmente desligou o aparelho.
Depois, tirou do bolso uma pequena chave de fendas e apertou um minúsculo parafuso. Ligou novamente o computador e comprovou que funcionava perfeitamente. O presidente da companhia ficou impressionado e ofereceu-se para pagar a conta de imediato.
-“Quanto é que lhe devo? "- perguntou
-“São mil euros, se faz favor."
-“Mil euros? Mil euros por uns minutos de trabalho!? Mil euros por apertar uma porra de parafuso!?! Eu sei que o computador custa muitos milhões de euros, mas mil pelo seu trabalho é um absurdo! Pagar-lhe-ei se me enviar uma factura perfeitamente detalhada e que justifique esse preço."
O engenheiro aceitou o pedido e foi-se embora. No dia seguinte, o presidente recebeu na sua secretária a factura. Olhou-a com calma e procedeu ao seu pagamento naquele momento, sem qualquer objecção.
A factura dizia:

Detalhe sobre os serviços prestados à Empresa....
Apertar um parafuso................ .... .... .... ... ..1 dólar
Saber qual parafuso apertar.............. ..... ... 999 dólares
Total ............................................. ..1000 dólares

Muitos técnicos enfrentam desconsiderações de pessoas que, na sua ignorância, não dão o devido valor ao saber de um profissional competente.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cartão de Cidadão (alerta)


Este novo cartão, pode ser muito útil e prático, isso não contesto, mas há que ter cuidado com algumas situações, como por exemplo, o caso de esta senhora que tem circulado pela net e que aqui fica como alerta:

-"O meu Bilhete de Identidade caducou e passei a ser portadora do Cartão de Cidadão. No momento do levantamento deste, numa Loja do Cidadão, fui confrontada com cuidados muito complexos do que os até então utilizados, para o levantamento de BI (neste contexto, entrega ao próprio, identificação pelas impressões digitais dos indicadores direitos e esquerdos, assinatura presencialmente na recepção do mesmo).
Perante o enorme volume de falsificações de documentos a que hoje em dia se assiste, todos estes cuidados pareceram-me correctos.
Apercebi-me, contudo, que o cartão contém diferentes informações não visíveis (que me dizem respeito) e às quais só com acesso a um leitor de cartões.
Aparentemente, a maioria dos usuários, não possui esta máquina. Refiro-me concretamente a todas as informações recolhidas nos documentos, que este novo cartão congrega: direcção, freguesia, número de contribuinte, data de validade, etc
Um dia tive de me deslocar fora da minha localidade e pernoitar num Hotel. Aí pediram-me o BI. Obviamente, apresentei o meu novo Cartão do Cidadão.
Qual não foi o meu espanto quando percebi que o jovem que me atendeu, colocou o meu Cartão de Cidadão num leitor de cartões e, num segundo, teve acesso a mais informações sobre mim do que eu própria! (foi ele mesmo que me disse que até via data de validade, que eu nem sabia qual era!) Meus amigos, isto faz algum sentido?
Então, têm todos os cuidados para entregar o cartão ao próprio cidadão e depois qualquer sujeito privado ou público tem acesso a esses dados? Deixam omissas informações que, depois qualquer pessoa tem acesso desde que tenha um leitor? Então o leitor de cartões não está acessível exclusivamente a organismos públicos? Para que diabo é que um serviço privado, como um hotel, tem acesso à minha vida toda privada e pessoal?
Onde está o direito à não invasão da minha privacidade? Todos estes dados, em conjunto, permitem o acesso a outras informações da minha vida pessoal e profissional, através da internet. Ex: a página pessoal de qualquer funcionário público. Que raio de prevenção contra a falsificação de documentos é esta? Será que ninguém percebeu ainda que, assim, a cópia da identidade de alguém se torna simples e eficaz?
Basta roubar um simples documento. O complicador é só ter um chip? Mas alguém acredita nisso? Cá por mim, nunca mais apresento o Cartão de Cidadão em lado nenhum.
A carta de condução (que também é um documento identificativo) vai passar a servir muito bem.
E o mais grave, é que, qualquer pessoa pode comprar um leitor destes através da Internet, eu própria pesquisei e cá estão pelo menos 2 modelos que escolhi entre muitos outros:
Leitura de cartões de alto rendimento e de pequenas dimensões para utilização móvel e de secretária. O leitor de BI electrónico Omnikey 3021 USB é muito flexível. Preparado para ler o Cartão de Cidadão (Portugal), o DNI electrónico (Espanha), bem como cartões de Saúde espanhois. Vantagens deste produto: * Leitor de smart cards e de BI electrónico (Cartão de Cidadão) * Suporta a maioria dos sistemas operativos

LEITOR DE CARTÕES PARA O USAR COM O CARTÃO DE CIDADÃO!
Leitor de cartões chip muito fácil de integrar e utilizar com qualquer cartão chip, cartões de crédito, DNI Electrónico espanhol e BI electrónico português, e smart cards.
Ideal para operações com cartão chip, incluindo “single sign-on”, banca online ou assinatura digital. Aplicações móveis Aplicações de leitura do BI Electrónico (Cartão do Cidadão)

Aqui fica o alerta! De facto, para se identificar num hotel, Correios ou noutra situação qualquer sem ser numa entidade do Governo que o exija, pode mostrar a carta de condução, porque é tão válida como o Cartão de Cidadão.

Para mais informações pode consultar o site: www.cartaodecidadao.pt
e, tenha sempre consigo (pode meter no telemóvel), o número do Serviço de Apoio ao Cartão do Cidadão (707 200 886) e o respectivo código de cancelamento (o código comprido junto aos pin que vem na carta de activação) para o caso de ser roubado o cartão.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A mendiga


Ali sentada, a chuva batia-lhe forte no chapéu, nas costas e nos seus parcos haveres.
Nunca tinha saído daquela vila encravada entre montanhas, que aos poucos crescera e se tornara cidade.
Já tinha tido uma vida de várias cores, agora ela não passava de um cinzento desfocado e os sons, de uma linguagem que mal compreendia.
Não se lembra ao certo quando a despojaram da sua casa, onde andavam os filhos que tinham emigrado cedo e nem sabiam se ela estava viva. Mas...quem fora ela?
Apenas restavam os sacos que continham tudo o que agora possuía, que era nada…
Quando a barriga trinava de fome, sempre encontrava em algum desses sacos, uma côdea dada por alguém, num lugar qualquer, com que apaziguava aquele apertar de saudade, por uma refeição quente.
Os sentimentos eram já confusos, alegria, tristeza, angustia, contentamento, nem sequer percebia o que sentia… só o frio naquelas noites em que o chão luzia de molhado, lhe provocava uma arrelia grande, tão grande, que saía por essa cidade fora, aos tropeções, vociferando e praguejando para os fantasmas imaginários, até o sol lhe aquecer as carnes flácidas e arrepiadas.
Tinha apenas uma ambição e uma esperança: encontrar alguém que lhe sorrisse, lhe desse a mão e a levasse a ver aquela “coisa” infinita, que tanto ouvia falar, a que chamavam Mar!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Gratidão

Esta cadela Doberman está grávida e este bombeiro acabou de salvá-la do incêndio em sua casa, colocou-a no jardim e continuou a sua luta contra o fogo.
Quando finalmente conseguiu extinguir o fogo, ele sentou-se para tomar um pouco de ar e descansar. Um fotógrafo do jornal Notícias da Carolina do Norte / EUA, que estava ali para reportar o acontecimento, notou que a cadela observava o bombeiro à distância.
Então, viu a Doberman caminhar em direcção ao bombeiro e ficou na expectativa: -"o que é que ela vai fazer?"
Assim que levantou a sua câmara, para apanhar o momento em que o animal iria reagir, ela chegou de mansinho até ao homem cansado, que acabara de salvar a sua vida e a dos seus bebés e então.. o fotógrafo captou o momento exacto em que a cadela beijou o bombeiro!
O ser humano continua a ter muito que aprender com os animais, que tão mal tratados são pelo Homem.
Poucos de nós, humanos, temos o gesto nobre de agradecer a quem nos faz bem, isto inclui médicos, paramédicos, enfermeiros, bombeiros...
Esta foto mostra-nos simplesmente que até os animais têm o sentido da GRATIDÃO.
O facto de nunca agradecer a quem nos trata bem, só demonstra o quanto ainda temos de sofrer, para nos tornarmos realmente humanos...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O cobrador misterioso


No exterior do England's Bristol Zoo existe um parque de estacionamento para 150 carros e 8 autocarros. Durante 25 anos, a cobrança do estacionamento foi efectuada por um muito simpático cobrador.
As taxas eram o correspondente a 1.40 € para carros e 7.00 € para os autocarros.
Um dia, após 25 sólidos anos de nenhuma falta ao trabalho, o cobrador simplesmente não apareceu.
A administração do Zoo, então, ligou para a Câmara Municipal e solicitou que enviassem um outro cobrador. A Câmara fez uma pequena pesquisa e respondeu que o estacionamento do Zoo era da responsabilidade do próprio Zoo, não dela.
A administração do Zoo respondeu que o cobrador era um empregado da Câmara.
A Câmara, por sua vez, respondeu que o cobrador do estacionamento jamais fizera parte dos seus quadros e que nunca lhe tinha pago ordenado.
Enquanto isso, descansando na sua bela residência nalgum lugar da costa da Espanha (ou algo parecido), existe um homem que, aparentemente, instalou a máquina de cobrança por sua conta e então, simplesmente começou a aparecer, todos os dias, cobrando e guardando as taxas de estacionamento, estimadas em 560 € por dia... durante 25 anos!!!
Assumindo que ele trabalhava os 7 dias da semana, arrecadou algo em torno de 7 milhões de Euros.
E ninguém sabe, nem sequer o seu nome ...!

(Transcrito do "The London Times")

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A fuga...


Era jovem e bonita. A família casara-a com um rico proprietário, sem que
ela pudesse opor-se. Interesses de família, ordenou o pai, e ela obedecera.
O tempo foi passando e, todos os dias, depois de tomar o pequeno-almoço,ela punha-se a caminho da praia! E todos os dias tinha o mesmo ritual, como eram rituais e monótonos os seus dias de mulher bem casada e sem filhos.
Pelo caminho, ia absorvendo cores e aromas, mesmo desviando-se um pouco, ao fim de algum tempo já os conhecia todos e até os antecipava. Chegada à praia, tirava os sapatos e percorria a orla do mar até chegar às rochas, lá ao fundo.
Voltava… voltava sempre! Mas naquele dia não voltou!
Ainda de sapatos na mão, com o olhar procurando o horizonte, foi entrando de mansinho na água e deixou-se banhar por esse mar imenso.
Ninguém a viu desaparecer por detrás das rochas. As buscas foram infrutíferas; até hoje, o corpo nunca apareceu. Já lá vão mais de 30 anos,ninguém soube ao certo o que lhe terá acontecido.
Mas numa pequena aldeia piscatória, em Espanha, perto da fronteira, uma tranquila e bela mulher, sorri sempre que alguém fala de afogados. Abana a cabeça e só diz:
- “Pois… pois…”

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Regresso de férias

Aqueles dias de praia, passeios, encontro de amigos de convivios feito de saudades e recordações, acabou… isso mesmo, as férias terminaram, estamos de volta ao trabalho, com a disposição renovada e claro, como é típico de português, já estou com uma pontinha de saudades daqueles belos dias que deixamos para trás, com a promessa de voltarmos a fazer tudo de novo nas próximas férias.
Deu para relaxar, rever velhos amigos e agora que as baterias foram recarregadas, é o arregaçar de mangas e labutar mais um ano.
Findo este longo período estival, nada mais oportuno que actualizar ou refazer a agenda para mais um longo ano de actividades diversas e capacitar-me que as férias terminaram mesmo, embora sinta ainda o coração bem longe daqui, mas enfim, o que é mesmo certo, é que voltámos ao activo e a engrenagem habitual começa a mover-se!
Por isso é altura de afinar os planos e ver o que nos espera este ano. Uma coisa é certa, à boa maneira de pensar portuguesa, ainda não é este ano que podemos ficar sentados no sofá e nos chegue tudo feitinho a casa e, ao fim do mês, nos caia o ordenado na conta do banco. Aqui para nós, até há gente que tem essa sorte…
Como sempre, está na altura de pôr de parte aqueles pensamentos mais negativos ou sonhos cheios de efeitos especiais, que só nos fazem esperar pelo rei D. Sebastião numa manhã de nevoeiro.
De volta à rotina, começo a ver o que me rodeia e aquilo com que vamos contar este ano, vê-se a olho nú que não é muito diferente daquilo com que iniciámos e encerrámos nas férias. As notícias vindas de diversos sectores, continuam a debitar as desgraças do costume, portanto, nada de novo no que toca a melhoramentos na vida dos cidadãos, antes pelo contrário, a palavra de ordem é: - "sacrifícios, sacrifícios e mais sacrifícios".
As aulas vão começar, os professores justamente seguem uma luta em defesa do seu estatuto. Estou com eles! Temos um ensino que caminha ao contrário das boas práticas internacionais. Um exemplo que se devia seguir, é o da Finlândia, que tem excelentes resultados na educação, dos melhores a nível europeu.
Não sei como é que conseguem, uma vez que passam 4 horas por dia na escola e os resultados são fantásticos, enquanto os nossos alunos estão lá enfiados o dia todo e os resultados são os mais desastrosos possíveis. Para sanar tanta desgraça, este ano vai ser implementada mais outra medida "revolucionária" no sistema de ensino - as aulas de substituição (podem rir que a situação permite). Vamos seguir os próximo episódios…
No plano político, que se poderá chamar o ano dos pactos, rixas internas, contratos de ordenados chorudos para os amigos do partido governante, reformas antecipadas igualmente chorudas, despedimentos, empresas a fechar, violência, subornos, injustiças, portanto, o costume… continuamos a não avistar nada de bom para quem precisa de trabalhar para comer. Como podemos estar bem, num país que está mal?

Resta-me desejar a todos um bom regresso ao trabalho, um ano cheio de sucessos e actividades positivas, pois só assim podemos dar os nossos dias por bem empregues. Vamos continuar a dar o nosso melhor, certo?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Acordo ortográfico


Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c, na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, vamos tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio...
Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - "não te esqueças de mim!"
Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade,não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como uma criança que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O mundo do "faz de conta"


Há muitos anos atrás, havia dois periodos distintos de educação e no comportamento das pessoas. Na minha infância aprendi com os meus pais que era preciso SER:
ser honesta;
ser educada;
ser digna;
ser respeitadora;
ser amiga;
ser leal;
ser trabalhadora...
De alguns anos a esta parte, temos sido testemunhas da fase do TER:
ter boa aparência;
ter dinheiro;
ter status;
ter uma boa casa;
ter os filhos em colegios muito “in”
ter móveis de estilo;
ter, ter, ter e ter!
Mas afinal o que temos nos dias de hoje? Pois hoje, as pessoas fazem de conta que está tudo bem:
os pais fazem de conta que educam;
os professorers fazem de conta que ensinam;
os alunos fazem de conta que aprendem;
os profissionais fazem de conta que são competentes;
os governantes fazem de conta que se preocupam com o povo;
o povo fazem de conta que acredita;
as pessoas fazem de conta que são honestas;
líderes religiosos fazem de conta que são representantes de Deus;l
os fiéis fazem de conta que têm fé;
criminosos fazem de conta que são dignos;
a justiça fazem de conta que funciona e que é imparcial;
E assim a população fazem de conta que está tudo bem, porque afinal o que conta é a aparência!

O triste mundo das aparências...
Por fora sorrisos educados,
Por dentro choro declarado...
Por fora aceitação social,
Por dentro rejeição moral...
Por fora uma vida comemorada,
Por dentro uma alma torturada...
Por fora um amor celebrado,
Por dentro um vazio constatado...
Por fora uma vida de aparência
Por dentro uma dor nas consciências...

Não podemos fazer de conta que, quando nos olhamos ao espelho e nos confrontamos com a nossa consciência, não há como enganá-la.
Pode haver mil desculpas para explicar o “faz de conta” de cada um, mas não há como justificá-lo!
Quem age assim, confunde-se e engana-se a si próprio, caindo no vazio das depressões, por não saber quem é na realidade.
Raras são as pessoas autênticas e, quando encontramos algumas, elas destacam-se dos demais, porque não estão a representar aquilo que não são, não se envergonham das suas realidades, e, se são alguma coisa, não fazem alarde disso.
Ainda existem pessoas de bem, que são bons profissionais, amigos leais, pais zelosos, politicos honestos, ainda vamos encontrando religiosos fiéis aos ensinos que ministram, pessoas que trabalham e lutam para conseguir pagar a sua sobreviência, etc, essas sim, são as pessoas que passaram a ser “especiais” neste mundo cão, que apenas empurra para passar. São pessoas de atitudes simples mas coerentes e, acima de tudo, fiéis para consigo mesmas que devemos querer para a nossa convivência e amizade.
É a existência dessas pessoas realmente autênticas e cada vez mais raras, que ainda me fazem acreditar que afinal o mundo não está completamente podre...