segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As virtudes do TAO


A origem do universo
é a mãe de todas as coisas
Quem encontra a mãe,
Conhece os filhos;
Quem ao conhecer os filhos,
Retorna à mãe;
Terminará os seus dias na salvação.

Quem fecha a boca
E guarda os seus sentidos,
Nunca se debilitará.
Quem abre a boca
E multiplica as suas actividades,
não poderá salvar-se.

Ser lúcido é ver o ínfimo
Conservar-se pequeno e manter-se forte.
Usa a luz para retornar ao teu interior
Isso te manterá a salvo
Isso chama-se seguir o TAO.

Se tivesses um profundo conhecimento,
avançarias pelo caminho do TAO,
com a única preocupação de te não separares dele.
O grande caminho é longo e tranquilo
mas nós preferimos os caminhos tortuosos.

Quando a corte resplandesce,
Os campos se enchem de erva-daninha
e os celeiros permanecem vazios...

Usar roupas luxuosas,
empunhar espadas afiadas,
fartar-se de bebidas e alimentos
ter mais possessões do que se pode ter,
tudo isso promove ao mau caminho ou ao roubo
e nos afasta do verdadeiro caminho do TAO


O TAO gera.
A virtude nutre.
O ambiente molda.
As influências dão-lhe brilho.
Todos os seres veneram o TAO
e apreciam a virtude.
E não o fazem por mandato
Mas de maneira espontânea.

Por isso o TAO gera todos os seres,
nutre-os e forma-os,
ampara-os e acolhe-os,
cuida e os faz amadurecer.
Gera sem apropriar-se,
Age sem buscar reconhecimento,
Lidera sem ordenar
Esta é a virtude primogénita.

O Tao não é só um caminho físico e espiritual; é identificado com O Absoluto que, gerou os opostos complementares: Yin e Yang; a partir dos quais todas as coisas que existem no Universo foram criadas.
É um conceito muito antigo, adoptado como o princípio fundamental do taoísmo.
O conceito de Tao é algo muito simples, mas não pode ser explicado. É o que existe e o que inexiste. Mas com tantos conceitos a fervilhar na nossa mente, temos dificuldade em compreendê-lo como um todo.
O Tao é o Caminho da espontaneidade natural. É o que produz todas as coisas que existem. O Te 德 (a Virtude) é o modo de caminhar espontâneo, que dá às coisas a sua perfeição.
Cada coisa é simplesmente o que é, e faz. Por isso, não é preciso fazer nada para que seja feito tudo o que deve ser feito. Isto é o Tao.
O Tao produz as coisas e é o Te que as sustenta. As coisas surgem espontaneamente e agem espontaneamente. Cada coisa tem o seu modo espontâneo e natural de ser. E todas as coisas são felizes desde que evoluam de acordo com a sua natureza. São as modificações nas suas naturezas, que causam a dor e o sofrimento.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.

Fazem-se portas e janelas para um quarto; mas são os buracos que os tornam úteis.
Buscamos sempre um conceito, mas... "O Tao que pode ser expressado, não é o Tao absoluto"
Para retornarmos ao Tao, ao Absoluto, temos que primeiro recuperar o nosso bem estar e a nossa paz interior. A partir desta condição, podemos encontrar o silêncio e a quietude interior, abandonando uma identidade egóica e trilhando um caminho que está além da forma e das linguagens. E, ao trilhar esse caminho, integrando-o na nossa vida diária, vamos então unir-nos ao Tao.

sábado, 8 de outubro de 2011

omens sem "H"

Manda quem pode... obdecerá quem deve?

Espantam-se? Não se espantem! Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece! A Bahia, felizmente, mantém orgulhosamente o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica mais bonito e porque sim!
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias.
Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as criancinhas... como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.

Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.

(Nuno Pacheco jornalista)

Não tenciono aplicar as regras do novo Acordo Ortográfico! Sou contra e sinto-me revoltada.
A adopção deste Acordo, parece-me medida de uma total inutilidade – as grandes diferenças entre o português europeu e o brasileiro não são de natureza ortográfica –a sintaxe é diferente nas duas normas e continuará a sê-lo e o campo semântico de muitos vocábulos, também.
Os termos e expressões brasileiras que entraram no quotidiano e se integraram na linguagem dos portugueses (cusca, fofoca, curtir, estar numa de, chamar de, viver às custas de…). As expressões brasileiras são normais nas bocas dos brasileiros e ridículas quando papagueadas pelos portugueses. Mas, visto à escala da história, nada disto é grave...
Se pudéssemos viajar para o futuro, talvez ficássemos tristes ao ouvir aquilo em que o português se terá transformado.
Aplicá-lo. Não o aplicar. Cada um que faça o que lhe aprouver.
Eu vou ignorá-lo.

O (Des)acordo Ortográfico

Desde 1 de Janeiro do ano passado, a Língua Portuguesa está unificada! Ou melhor, desde 2009 que estão a tentar unificá-la.
Nesta data, entrou em vigor o Novo Acordo Ortográfico, que visa igualar a escrita do português em países que falam o mesmo idioma. Acentos foram removidos, assim como hífens, formando palavras visivelmente estranhas, mas sonoramente, as mesmas de sempre.
Muitos foram contra esta monstruosidade linguística, pensando na dificuldade em se adaptar às novas regras e não só, a revolta de termos de nos adaptar a uma nova ortografia tendo como modelo o Brasil. Ora se fomos nós, os portugueses, a exportar a língua...
Mas não há remédio: manda quem pode! A escrita mudou, e temos mais algum tempo até que o nosso“antigo” modelo ortográfico seja completamente deixado de lado.
Contudo, alguns meses depois surgiu o Desacordo Ortográfico. Infelizmente, não eram os governos a querer voltar atrás, mas sim uma antologia de contos de autores da Língua Portuguesa organizada por Reginaldo Pujol Filho e publicada pela Não Editora.
Enquanto os livros começavam a ser impressos com as novas regras, a Não quis fazer uma obra que contivesse as diferenças de escrita que o português proporciona.
Entre os autores, estão brasileiros, como Luis Fernando Verríssimo e Xico Sá, portugueses como Patrícia Reis, angolanos como Pepetela e outros autores de diversos países que adoptam o português como língua oficial.
Uma mostra de que, no idioma português, não importa o lugar, as mesmas palavras podem ser interpretadas de formas diferentes, enquanto palavras distintas podem ter o mesmo significado. O Desacordo Ortográfico é recomendado para quem gosta de se aventurar na diversidade que a nossa língua proporciona. Um livro que mostra que unificação alguma irá tirar do Português essa característica.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Bambu Terapêutico

Esta é a planta mais extraordinária do planeta, possuidora de uma beleza única. A sua história é cercada de mitos, que têm passado de geração em geração, assim como os seus imensos benefícios na vida do ser humano.
O bambu pode passar anos e anos sem dar sinal quando plantado, enquanto cria raízes fortes que se espalham pelo solo, sendo depois as responsáveis pela sua segurança e propagação.
Quando por fim “dá o ar da sua graça”, pode chegar a enormes alturas com elegância e fascíneo, gerando uma enorme família à sua volta de bambus interindependentes e solidários.
Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê nada, absolutamente nada, durante 4 anos - excepto o lento desabrochar de um diminuto rebento, a partir do bulbo.
Durante esses anos, todo o crescimento é subterrâneo, numa maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e horizontalmente pela terra.
Mas então, no quinto ano, o bambu chinês cresce, até atingir 24 metros.
Muitas coisas na vida (pessoal e profissional) são iguais ao bambu chinês.
Você trabalha, investe tempo e esforço, faz tudo o que pode para nutrir o seu crescimento, e às vezes não se vê nada durante semanas, meses ou mesmo anos.
Mas, se tiver paciência para continuar a trabalhar e a nutrir, o "quinto ano" chegará e o crescimento e a mudança que se processam, o deixá-lo-ão espantado.
O bambu chinês mostra que não podemos desistir fácilmente das coisas...
Existem espaços para todos as espécimes, cada um é o resultado de muita vontade de viver, cada um com a sua natureza, com os seus valores... cores... e... comportamentos. Todos são exemplos...
Flexível, o bambuzal dança ao sabor do vento, ecoando aos sete ventos do mundo que é preciso saber viver exactamente como ele, valorizando a união, tendo força para suportar o pior; beleza e suavidade para encarar a vida, sabendo a hora de flectir com elegância para não perder o equilíbrio, cheio de energia de integração com a Natureza.

****** TERAPIAS ******

Criada pelas mãos de um francês, a bamboo massage, nasceu em 2003 com o prepósito de associar várias técnicas numa só, levando em conta a necessidade de cada indivíduo.
Todos os bambus sofrem uma preparação antes de serem aplicados na massagem, de forma a não prejudicarem de maneira alguma a saúde do cliente. São correctamente higienizados, para que só sejam passados benefícios físicos, mentais e energéticos ao cliente.
Nesta nova terapia só os bambus possuidores de tamanhos e diâmetros diferenciados, dançam no corpo do cliente, trocando energias, criando uma nova dinâmica na área das massagens, tanto para o cliente, como para o profissional, que usa as mais variadas manobras, usando as hastes como instrumentos musicais, rolando, pressionando e deslizando sobre os músculos, estimulando a sensibilidade dérmica com o seu toque macio, acetinado, provocando uma agradável sensação de aconchego, que pode ser ainda mais intenso, quando os bambus são previamente aquecidos.

****** BENEFÍCIOS ******
Além dos benefícios enquanto massagem, a bambuterapia ainda associa manobras de massagem relaxante, modeladora, drenagem linfática, shiatsu e reflexologia, além de promover também um leve lifting facial, variando de acordo com a queixa principal do cliente, relatada no primeiro contacto.
No ritual facial, por exemplo, é realizada uma esfoliação antes da terapia, para eleminar os excessos de resíduos na epiderme, desintoxicando-a, para depois poder absorver os tratamentos seguintes.
De seguida, é colocada uma máscara específica para cada tipo de pele que tem as potencialidades ainda mais favorecidas pelos efeitos térmicos e desitoxicantes que a massagem de bambus possui. É totalmente possível que este ritual seja feito inteiramente com produtos que se utilizem extractos de bambu, ricos em selénio de zinco. Os movimentos realizados durante a massagem facial, produzem um levantamento muscular significativo, produzido por repetições contínuas.
Pode-se dizer que a bambuterapia é uma inovação exótica, que mistura uma arte complexa com a simplicidade da Natureza, onde se mergulha num vale de bem estar, e se chega ao estado Zen, que cada um possui dentro de si.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A arte da calçada à portuguesa

A calçada portuguesa resulta do calcetamento com pedras de formato irregular, geralmente de calcário e basalto, que podem ser usadas para formar padrões decorativos pelo contraste entre as pedras de distintas cores.
As cores mais tradicionais são o preto e o branco, embora sejam populares também o castanho e o vermelho.
A calçada portuguesa, conforme a conhecemos, foi empregada pela primeira vez em Lisboa no ano de 1842. O trabalho foi realizado por presidiários (chamados "grilhetas" na época), a mando do Governador de armas do Castelo de São Jorge, o Tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado. O desenho utilizado nesse pavimento foi de um traçado simples (tipo zig-zag) mas, para a época, a obra foi de certa forma insólita, tendo motivado cronistas portugueses a escrever sobre o assunto.
Após este primeiro acontecimento, foram concedidas verbas a Eusébio Furtado para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8.712 m².
A maioria das calçadas de Lisboa, na pavimentação de espaços públicos e não só, são “basicamente” passeios calcetados com pedras de formato irregular de cor preta e branca, formando diversos desenhos que integram temas diversos.
Terá surgido pela primeira vez em Lisboa no séc. XV e rapidamente expandido pelas vilas e aldeias do país. É amplamente utilizada em Portugal e também no Brasil, mas é em Portugal onde é considerada parte da tradição e expressão cultural, encarada como uma herança histórica do país.
Vemos por exemplo esta calçada numa das ruas de Matosinhos...
A calçada portuguesa não só se espalhou rapidamente por todo o país e colónias, subjacente a um ideal de moda e de bom gosto, tendo-se apurado o sentido artístico, que foi aliado a um conceito de funcionalidade, originando autênticas obras-primas nas zonas pedonais.

Vemos aqui esta praça em Moçambique, onde esta arte chegou para ficar. Hoje em dia existem ruas e praças onde a calçada à portuguesa foi difundida e aprendida pelos calceteiros locais, dando asas à imaginação om desenhos caracteristicos da cultura africana.

S. Salvador da Bahia - Brasil
No Brasil, este foi um dos mais populares materiais utilizados pelo paisagismo do século XX, devido à sua flexibilidade de montagem e de composição plástica.

A sua aplicação pode ser apreciada em projectos como esta da foto, o calçadão da Praia de Copacabana, (uma obra de Roberto Burle Marx) ou nos espaços da antiga Avenida Central, ambos no Rio de Janeiro.
Daqui, bastou somente mais um passo, para que esta arte ultrapassasse fronteiras, sendo solicitados mestres calceteiros portugueses para executar e ensinar estes trabalhos no estrangeiro.

Estes desenhos em rosa, numa das artérias principais de Nova Iorque...

Em Pequim, alguns profissinais chineses que aprenderam a arte de calceteiros, fazem belos trabalhos inspirados nas viagens dos portugueses nas suas naus.

Na Expo de Shanghai em 2010, o coelhinho de Macau, teve um "tapete de ondas" iguais às que existem no Largo do Leal Senado em Macau, que também está revestido com a calçada à portuguesa.

Assim, em Macau, muitos passeios e praças são também pavimentados com calçada portuguesa. Em 1990, o governo de Macau revestiu com esta calçada, de cor branca e preta, o Largo do Senado,
bem como pavimentou alguns passeios e largos, que dão hoje em dia, um aspecto alegre, colorido e interessante aos que por ali passam e fotografam esta mistura de culturas.

A técnica da calçada à portuguesa

Em 1986, foi criada uma escola para calceteiros (a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa), situada na Quinta Conde dos Arcos.
Da autoria de Sérgio Stichini, em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória (baixa Pombalina), entre as Rua da Prata e Rua dos Douradores.
Os calceteiros tiram partido do sistema de diaclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra, e utilizam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, de forma a que repetem os motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões).
A geometria do século XX demonstrou que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses registou, nas calçadas de Lisboa, 5 frisos e 11 padrões, atestando a sua riqueza em simetrias.

Imagine que os emigrantes conseguiram levar esta arte para algumas ruas de S. Francisco da Califórnia...

Que caminhos são estes que nos direccionam por labirintos mitológicos e que universo é este que, silenciosamente, também caminha por passeios de pedra consistente, elaborados nos confins da nossa consciência?
Que coisa é esta de levar tudo atrás de nós? Levamos connosco o cão, o gato, os pastéis de nata, as formas floreadas das janelas para o sol entrar, a calçada para receber os amigos, as cores alegres nas fachadas de azulejos que reflectem a luz numa sensação primaveril… a poesia que o fado declama pelas ruelas de uma saudade exasperada em qualquer ponto do mundo...

(Bocage nas terras de Gêngis Khan)

NOTA:Algumas das imagens apresentadas foram retiradas do livro Calçada Portuguesa no Mundo - per orbem terrarum et marem vastum
e outras fotos de Ernesto de Matos

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Amor é...

O verdadeiro amor não se reduz ao físico nem ao romântico.
O verdadeiro amor é a aceitação de tudo o que o outro é, o que foi, que será e... o que já não é!
Um homem de idade já bem avançada foi à Clínica onde trabalho, para fazer um curativo numa mão ferida... Estava apressado, dizendo-se atrasado para um compromisso, e enquanto o tratava perguntei-lhe qual o motivo de tanta pressa.
Ele contou-me que precisava de ir ao asilo de idosos para, como sempre, tomar o pequeno almoço com a esposa que estava lá internada.
Disse-me também que ela já estava há algum tempo internada nesse lugar, porque sofria de Alzheimer, infelizmente bastante avançado.
Enquanto acabava de fazer o curativo, perguntei-lhe se ela não se alarmaria pelo facto de ele chegar mais tarde.
- Não! - respondeu ele com um sorriso triste.-“ Ela já não sabe quem eu sou. Já há quase cinco anos, que não me reconhece.”
Admirada, perguntei-lhe:
- “Mas se ela já não sabe quem o senhor é, porque tem essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?”
Ele então sorriu e, dando-me uma palmadinha na mão, respondeu apressado:
- “Pois… ela não sabe quem eu sou, mas eu, contudo, sei muito bem quem ela é!”
Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Enquanto ele atravessava a porta de saída, eu pensei: este é que é o verdadeiro amor! Quem me dera tê-lo na minha vida...

NOTA:Traduzido e adaptado de um texto em espanhol, autor desconhecido

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Hoje há... TUFÃO!


Desde ontem que os noticiários passavam imagens do tufão "Nesat", que fez imensos estragos nas Filipinas onde, pelo menos, 35 pessoas morreram, cerca de 40 continuam desaparecidas e ainda afectou cerca de meio milhão de pessoas no norte do arquipélago. Por percaução, em Macau, os Serviços Metereológicos colocaram ontem o sinal 1 de tufão e garantiam que não passaria do sinal 3....
Durante a noite, fui ouvindo o vento a uivar, abanando as janelas. Levantei-me à hora habitual e abri o rádio e a televisão. Fiquei surpreendida ao ver que, no ecran da televisão, lá estava o sinal 8 de tufão, desde as seis horas da manhã e sendo assim, devem encerrar os serviços públicos, escolas, o comércio em geral e alguns transportes, incluíndo ligações marítimas com Macau e outras regiões do sul da China.
As pessoas não devem sair de casa, por correrem o perigo de levar com alguma coisa em cima. Como todos os residentes, quando há um tufão desta envergadura, ficamos satisfeitos por ficar inesperadamente em casa.

Durante a manhã, fomos vendo as notícias e de facto os ventos estavam muito fortes, percebemos depois que isto ia durar o dia todo.
Como sempre, são inevitáveis as inundações na zona do Porto Interior, com uma altura de 50 centímetros acima do pavimento das ruas.
Noutras zonas, as inundações também invadem as ruas de Macau, devido à subida da maré, e o trânsito fica desde logo muito complicado...

Infelizmente nem todos podem ficar em casa calmamente a ouvir o vento e a chuva lá fora, pois muitos dos operários têm mesmo de enfrenter a tempestade, para não perderem um dia de salário que tanta falta lhes faz... Os direitos e diferenças laborais / sociais continuam a ser gritantes em Macau.

Apanhar táxi é quase uma miragem, via-se filas infindáveis de pessoas nas Portas do Cerco e lá aparecia um ou outro, claramente insuficientes para tanta procura.
Existem imensas queixas sobre o mau serviço dos táxis em Macau, para além dos motoristas nem sequer "arranharem" inglês para entenderem um estrangeiro, só atendem quem querem e o pior de tudo, aproveitam-se dos tufões ou de tempestades para exigirem quantias exorbitantes. As pessoas aflitas, normalmente pagam o que que eles pedem se quiserem chegar ao seu destino. Para Macau ser mesmo uma cidade internacional, este problema tem que ser resolvido e depressa, com uma fiscalização e punição eficases.

As pontes que ligam Macau à ilha da Taipa, foram encerradas ao trânsito, apenas se pode usar um tabuleiro por debaixo da Ponte Sai Van, para qualquer emergência. Infelizmente, muita gente usou-a para passear com a família, porque devem achar divertido andar por baixo dos tufões ou tempestades, refastelados na comidade dos seus carrinhos último modelo, fazendo assim enormes filas para atravessá-la.
Já quase na hora do almoço, fui espreitar a rua atrás da minha, para ver o que estaria aberto, pois aqui existem alguns restaurantes e eu estava com pouca vontade de cozinhar. porém, só tasquinhas chinesas estavam abertas e completamente cheia de operários. Reparei que a cerca de ferro e betão que cerca um jardim em construção aqui na ilha da Taipa, estava caída, embora aparente ser bem pesado, no entanto a força do vento derrubou-o.

Mais adiante, vários ramos de árvores tinham sido arrancados com o vento. Por todo o lado havia lixo espalhado, que o vento arrastou dos respectivos latões e caixotes do lixo.
As enormes e suspensas placas de anúncios abanavam perigosamente. Soube depois que algumas delas, em Macau, tinham sido arrancadas com o vento e caído no chão. É aqui que reside o perigo, se apanha alguém...

Já à porta de casa, reparei que um carro da polícia patrolhava as ruas, enquanto passava um carro dos bombeiros, para acudir alguém, num outro ponto da cidade. Os apitos dos carros de bombeiros e das ambulâncias tem sido uma constante todo o dia.
Apesar de tudo, e até agora, não há vitimas a registar, embora haja muitos prejuízos materias e muitas pessoas tivessem ficado retidas no aeroporto e nas salas do jet-foil, o tufão partiu para o sul da China, deixando-nos como sempre, as chuvas intensas, que continuam a fustigar Macau.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Os perdidos na noite...


Na casa da lua bonita, mora um raio de luz, que ilumina a noite para que os bêbados, os perdidos e os solitários, não se percam e não mais fiquem sós, além do que a solidão lhes permite.
Cada feixe de luz, transmite-lhes algo de paz suficientemente necessária para que prossigam, vivendo, ainda que bêbados, perdidos ou solitários.
Que deles seria sem a lua, sem a noite? Que fariam para esquecer? Como se achariam e como reagiriam ao perceberem-se sós?
À chegada do sol, tudo volta ao normal... aguarda-se uma nova noite, que vai chegar, trazendo o consolo nocturno aos bêbados, aos perdidos e aos solitários, que só na paz da lua, encontram forças para seguirem adiante...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O meio ambiente...

Na fila do supermercado, a menina da "caixa", metia as mercadorias em sacos, mas ia dizendo com uma certa altivez a uma senhora já com uma "certa idade", que deveria trazer os seus próprios sacos para as compras, uma vez que os sacos de plástico não eram amigos do meio ambiente.
A senhora pediu desculpa e rematou de seguida: - "Sabe minha filha, não havia essa onda verde no meu tempo..."
A empregada insistiu enfadada: - "Pois é exactamente esse o nosso problema de hoje, minha senhora. A sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso meio ambiente e hoje é aquilo que se vê, poluição e lixo por todo o lado sem grandes soluções à vista".
- "É claro que a menina está a dizer uma grande verdade!" - respondeu calmamente a senhora - "De facto a nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. E sabe porquê minha menina? Porque na MINHA ÉPOCA, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e de cerveja eram devolvidas à loja e esta, mandava novamente para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de serem novamente usadas, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas outras tantas vezes.
Realmente não nos preocupámos com o meio ambiente no nosso tempo, porque não era necessário, porque subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até ao comércio, em vez de utilizarmos o nosso carro de 300 cavalos de potência cada vez que precisamos de ir a dois quarteirões de distância.

-"Mas você está correcta sim senhor! Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente! Imagine que as fraldas de bebés eram feitas de tecido e lavadas à mão, porque não havia fraldas descartáveis, como hoje se vê por todo o lado no lixo. A roupa era estendida numa corda e seca ao sol e não em máquinas bamboleantes de 220 volts como hoje quase toda a gente tem em casa.
As crianças pequenas, usavam as roupas que tinham sido dos irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.
Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias, talvez porque naquela época, tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não do tamanho de um lençol que depois será descartado como?
Na cozinha, tínhamos que bater tudo à mão, porque não havia as máquinas eléctricas, que hoje em dia fazem tudo por nós. Quando elas se avariam, para onde as levam? Ah e veja lá que quando tínhamos de embalar algo frágil para transportar ou para o correio, usávamos jornais amassados para protegê-lo, não plásticos com bolhas ou "pallets" de plástico, que duram cinco séculos para começar a degradar.
Naqueles tempos, não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a relva, era utilizado um cortador de relva, que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisavávamos de ir para um ginásio e usar passadeiras que também funcionam a eletricidade.
Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente, até porque bebíamos directamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas que agora enchem os oceanos. As canetas eram recarregáveis com tinta que tinhamos num frasco para usar umas tantas vezes, em vez de comprar uma outra. Apenas abandonámos as navalhas, ao invés de deitar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes, só porque a lâmina ficou sem corte.
Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas apanhavam o autocarro e os meninos iam nas suas bicicletas ou a pé para a escola, em vez de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas ao dia, toda a semana.
Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizaria mais próxima.
Então, não dá vontade de rir que a actual geração venha agora falar tanto em meio ambiente?? Mas o que mais me espanta, é que não queiram abrir mão de nada e não pensem em viver um pouco como na minha época?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Colecção de Postais

Quando tinha 7 para 8 anos e já começava a soletrar as primeiras letras, gostava imenso de ler e guardar postais com desenhos, imagens com humor, pinturas, etc, que os meus pais recebiam dos amigos das suas viagens, pelo natal ou pelos aniversários...
Depois passou a ser a minha vez, em todos os meus aniversários, a família e amigos, sabendo do meu gosto, escreviam-me um postalinho com imagens de meninas, flores ou animais a desejar-me um dia feliz e muitos anos de saúde.
Acredito que os objectos, neste caso, os postais, são capazes de contar extraordinárias e reveladoras histórias. Sobre um povo e os seus gostos peculiares, sobre uma sociedade e o seu contexto, sobre uma história, que é afinal, uma identidade comum. Hoje em dia, esse excelente hábito perdeu-se com o nascimento da Era Informática. Mas mesmo assim, continuo a comprar postais e até alguns amigos também me enviam alguns dos locais onde passam as férias, felizmente que este hábito não está completamente banido, pelo menos das pessoas da minha idade.
Ao longo de todos estes anos, tenho guardado os postais que fui recebendo, que fui comprando, e, a maioria deles, estão metidos em caixas na minha casa de Portugal. Aguardam que um dia os meta em álbuns por temas, será um dos meus trabalhos prioritários, quando me reformar, penso eu...
Desde então aprendi a fantasiar através deles. Estes são postais de Setúbal dos anos 70...
Ao olhar os postais encontro referências visuais de vários momentos vividos e sonhados em locais que me são gratos, que vivi com os meus pais e outros familiares já desaparecidos. Hoje acho que foi uma boa ideia em os ter guardado e, quase inconscientemente, organizei-os por temas, ou seja, animais, paisagens, os mais antigos, de humor, flores, enfim, acabei por criar um museu visual pessoal, que mais tarde os meterei nos respectivos álbuns. Nesta época, quem recebia destes postais, guardava-os invariavelmente em álbuns mais ou menos luxuosos, conforme o gosto ou as possibilidades de cada um. Em quase todas as casas das pessoas com quem mantínhamos relações, e por onde passei a minha meninice, havia belos álbuns de postais ilustrados, que fizeram o encanto de muitas das minhas tardes em casa de amigos dos meus pais. Talvez esta minha apetência em coleccioná-los venha da vontade em ter esses álbuns. Postal da Guiné - Bissau onde os meus dois irmãos foram parar na altura da guerra colonial. Tenho imensos, e, no verso, estão escritos pedaços de ansiedade, medos disfarçados, conversas banais de acontecimentos do dia a dia deles, onde a morte pairava a cada momento. Muitos dos postais, não condizem com a realidade. São, por vezes, uma realidade recriada, como uma invenção de situações e paisagens. Merecem atenção e carinho, não só pelo que têm de curioso, como pelo seu valor documental para o futuro.
Por vezes, abro o envelope onde tenho um molhinho, aqui em Macau, e passo algum tempo a examiná-los. Não deixo de sorrir ao observar as "poses" das modelos, ou as paisagens de algumas cidades, que hoje já nem são uma sombra do que eram. Os postais são uma forma de memória, e, como todas as memórias, uns mais bonitos que outros.
Das viagens que faço trago sempre vários postais: dos museus, pintura, desenho, poesia, poesia visual, animais, arquitectura, paisagens...
Guardo também muitos deles de locais que passei em Portugal outros, comprei porque achei bonitos:, Lisboa, Sintra, Setúbal, Sesimbra, Lagos, Águeda, Porto, Gouveia, Serra da Estrela, Viseu, Guarda, Coimbra, Madrid, Sevilha, Barcelona, Londres, Paris, e depois de começar a viver em Macau, vou comprando os de várias cidades. Nestas viagens cheias de bons momentos, ao olhar para os postais, elas ficam para sempre na nossa memória afectiva. E os postais também são uma pequena parte dessa alegria. O estilo "arte nova" foi dominante em várias séries de postais de edição limitada, desde o ano de 1890 até 1906.
É interessante ter vários tipos de postais de arte, quer de pintura, de artesanato ou mesmo de vestes tradicionais de vários países, incluindo o nosso. Ou... aprender com eles, como por exemplo, de acordo com este postal inglês, as áreas destinadas a banhos obedeciam a uma espécie de apartheid: meninas para um lado, meninos para outro. (pode ler-se no letreiro nas costas da banhista: "mixed bathing not allowed")
E, porque conhecemos – como não? – o infinito poder da saudade, outorgamos também aos postais esse condão mágico de, como uma certa madalena, acordar sensações e lembranças em cada um de nós. Revelar-nos portanto.
Coleccionar postais é um acto de prazer, aprendizado e de memória, que podem ser passados aos nossos descendentes, como uma herança do passado e das nossas raizes.