segunda-feira, 22 de julho de 2013

Deitei o meu filho no lixo



Nos últimos tempos, as notícias que nos chegam através dos meios de comunicação é de nos deixar os cabelos em pé. Parece que se tornou moda deitar os filhos no lixo. Assim… como se fosse comida enlatada fora de prazo e não um ser humano gerado no próprio corpo e carregado durante nove meses, que afinal não deixou qualquer espécie de laços ou sentimento por aquele ser vivo e indefeso, carne da própria carne e sangue do próprio sangue, que após o nascimento são capazes de o estrangular e, ou enfiá-lo ainda vivo num latão de lixo?
Que se passa com a maioria das sociedades para praticarem tal atrocidade? Onde está aquela “coisa” que se chama piedade ou “amor de mãe”?
Aqui vai a história, de uma das muitas Ritas que povoam este estranho universo de pessoas que, por razões várias, se livram dos seus filhos logo após os partos, na maioria dos casos, feitos por elas próprias:

A Rita chegou a frequentar uma escola secundária de Évora. Filha de um motorista desempregado e de uma empregada doméstica a dias, cedo arranjou um namorado. Com apenas 15 anos passou muitas noites fora de casa. Uma das colegas disse-lhe que pensasse bem em que vidas andava já que faltava à escola assiduamente. Os pais foram chamados à directoria da escola mas não compareceram. Disseram à filha que não tinham nada a ver com a vida que levava com o namorado e que não queriam saber mais nada sobre os seus estudos e o seu futuro. O ambiente familiar deteriorou-se ao ponto da Rita bater na mãe e o seu pai ter partido uma bilha de barro em cima das suas costas.
O pai foi preso por ter participado num assalto a uma residência e a mãe fugiu para fora da capital alentejana com outro homem. As colegas de Rita tentaram recuperar a Rita-estudante mas a Rita-mulher rejeitou o contacto e resolveu aceitar o convite do namorado, numa manhã quente de Agosto. O destino era Espanha, para onde o companheiro a convencera de que por lá tinha trabalho.
Passados quatro meses Rita regressou à urbe eborense com um semblante misterioso, triste e desorientado. As colegas tentaram novamente compreender as suas decisões de vida e confirmaram que Rita estava grávida. Quando pareceu que tudo não passaria de mais um caso de mãe solteira, Rita voltou a desaparecer. As suas colegas ficaram desoladas por não terem conseguido cativar Rita num regresso às aulas e a um modo de vida melhorado, porquanto, uma das amigas prontificou-se a ceder-lhe um quarto em sua casa.
Quando entre os amigos de Rita menos se esperava que ela voltasse à terra que a viu nascer, na freguesia de São Mamede, eis que Rita bateu à porta da amiga que se tinha mostrado hospitaleira e pediu guarida. E o teu bebé? Aborto? Adopção? Rita chorou incessantemente durante mais de dez minutos e a sua anfitriã voltou a indagar sobre o paradeiro do bebé, que ela sabia ter estado na barriga de Rita. Abandono junto da porta de algum colégio de freiras? Na igreja do padre que lhe ministrou o baptismo? Rita, em soluços, balbuciou umas palavras incompreensíveis. A amiga abraçou-a e sentou-a no sofá da sala. Estavam sozinhas e confidentes. Rita voltou a chorar e a sua amiga voltou a interrogar. Diz, diz onde está o bebé? A resposta veio tenebrosamente chocante e tão macabra quanto realista. Rita confessou que tinha asfixiado o filho num saco de plástico e que o tinha deitado num contentor de lixo.
Portugal está assim. Os leitores acompanham certamente o que se passa no rectângulo mal plantado à beira-mar, mas não fazem ideia como a situação social se está a agravar. Os números do crime são assustadores e as autoridades confirmam constantes casos de bebés mortos ou abandonados.
Em face deste panorama negro, as opiniões dividem-se. Para uns, estamos perante várias falhas no sistema de apoio e solidariedade social. Para outros, a justificação prende-se com a destruição paulatina que tem vindo a acontecer no seio do sistema religioso existente no âmago dos agregados familiares.

(Baseado em caso verídico)
Publicado no Jornal “Hoje Macau” 

PROIBIDO DEITAR BEBÉS NO LIXO 

Um morador dos EUA manifesta assim a sua revolta, devido à quantidade de bebés deitados neste contentor de lixo.

Abandonar um filho, matá-lo ou entregá-lo para adopção tem forçosamente que merecer um estudo profundo por parte dos psicólogos e psiquiatras. E dos políticos! Sim, de políticos, porque são eles que decidem e controlam certo tipo de políticas que atiram com as populações mais desprotegidas para o desespero, suicídio e para o crime. Abandonar um filho é crime horrendo. Indiscutível! E as causas? Onde estão as causas de tamanha barbárie? Não podem ser causas equacionadas sem profundidade e acabando-se por diagnosticar um fenómeno que nada tem de doentio.
Quem está doente é o país. A situação degrada-se todos os dias. Nos mais diversos quadrantes da sociedade. 
Dos casais desempregados aos estivadores. 
Dos estudantes e crianças internadas em hospitais, que espelham fome aos polícias e militares que apoiam o tráfico de droga e de armas. 
Portugal está à beira do abismo, dizem certos observadores. 
Diremos, que já caiu bem no fundo...



sexta-feira, 19 de julho de 2013

A última homenagem


ALGO ACONTECEU NO UNIVERSO - MUITO MAIOR E MAIS PROFUNDO QUE A INTELIGÊNCIA HUMANA
MISTÉRIOS DO MUNDO ANIMAL!

Lawrence Anthony, uma lenda viva na África do Sul, autor de 3 livros, entre eles o best-seller O Encantador de Elefantes, valentemente resgatou inúmeros animais selvagens e reabilitou elefantes por todo o planeta após serem vitimados por atrocidades humanas, entre elas o corajoso resgate dos animais do Zoológico de Bagdá durante a invasão dos Estados Unidos em 2003.


No dia 7 de Março de 2012 Lawrence Anthony faleceu.
Deixou saudades e é sempre lembrado pela sua esposa, dois filhos, dois netos e numerosos elefantes.
Dois dias após o seu falecimento, os elefantes selvagens apareceram em sua casa, guiados por duas grandes matriarcas.
Outras manadas selvagens apareceram em bandos, para dizer adeus ao seu amado amigo-homem.
Um total de 31 elefantes tinha caminhado pacientemente, mais de 12 milhas para chegar à sua residência sul-africana.
Ao testemunhar este espectáculo, os humanos obviamente ficaram abismados, não apenas por causa da suprema inteligência e timing perfeito com que estes elefantes pressentiram o falecimento de Lawrence, mas também devido às profundas lembranças e emoções que os amados animais relembraram de uma forma tão organizada.
Caminhando lentamente - durante dias - marchando pelo caminho numa fila solene, desde seu habitat até à sua casa.
Assim, como os elefantes da reserva, pastando a milhas de distância em partes distantes do parque, poderiam saber da morte de Anthony ?
"Um homem bom morreu de repente" diz a Rabina Leila Gal Berner, Ph.D., " e vindo de muito, muito longe, duas manadas de elefantes, sentindo que eles tinham perdido um amado amigo humano, moveram-se numa solene procissão fúnebre, para visitar a família enlutada na residência do falecido. Se alguma vez houve uma ocasião em que podemos realmente sentir a maravilhosa intercomunicação de todos os seres, foi quando reflectimos sobre os elefantes de Thula Thula.
O coração de um homem pára de bater e os corações de centenas de elefantes entristecem-se."

A VIAGEM DOS ELEFANTES PARA PRESTAR A SUA ÚLTIMA HOMENAGEM 
MAS... COMO ELES PODERIAM SABER QUE O SEU AMIGO MORREU? 

A esposa de Lawrence, Françoise, estava particularmente comovida, sabendo que os elefantes não tinham vindo à sua casa antes desta data, há mais de três anos!
-"O coração tão generoso e dedicado deste homem, ofereceu a cura a estes elefantes e agora eles vêm prestar uma carinhosa homenagem ao seu amigo."

E...sabiam perfeitamente para onde estavam a ir!

Os elefantes obviamente queriam apresentar as suas sentidas condolências, em honra do seu amigo, que lhes tinha salvo as vidas e, por isso, além da gratidão, era também enorme o seu respeito, que ficaram durante dois dias e duas noites sem comer absolutamente nada.

E assim, uma manhã, eles partiram para a sua longa viagem de volta...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

SINFONIA INCOMPLETA

As grandes obras são sonhadas pelos génios, executadas pelos lutadores, desfrutadas pelos felizes e criticadas pelos inúteis crónicos.
Esta é uma crítica à visão empresarial de uma escola.
Uma brigada especializada em métodos de organização e administração, visitou a Universidade de Liverpool, para inquirir sobre a eficácia (ou falta dela), do gabinete do vice cancelário.

A visita coincidiu com um dos concertos da Real Orquestra Filarmónica de Liverpool, a que sempre assistia o vice cancelário.
Nesta ocasião, contudo, ele não podia assistir ao concerto e, com a sua habitual generosidade ofereceu o bilhete ao chefe da brigada, que nunca tinha assistido a um concerto, ainda que tivesse recebido na escola educação musical.
A obra principal do programa dessa noite era a Sinfonia Incompleta de Schubert.
Na manhã seguinte, quando o vice cancelário perguntou à sua visita se tinha gostado do concerto, com grande espanto viu que este lhe entregava um relatório, com duas páginas dactilografadas, onde se lia:

“ 1 - Durante períodos consideráveis, os quatro tocadores de oboé não tinham nada que fazer. O seu número devia ser reduzido e o trabalho mais convenientemente distribuído pelo concerto todo, eliminando assim pausas de actividade.

2 - Todos os 12 violinos tocavam as mesmas notas. Isto parece uma duplicação desnecessária. O pessoal desta secção deve ser drasticamente reduzido e se realmente se deseja um volume de som maior isto pode ser obtido por meio de um amplificador electrónico.

3 - Gastou-se grande esforço em tocar semifusas. Isto parece um refinamento excessivo e recomenda-se que se reduza o valor das notas a fusas. Se isto se fizer, será possível usar estagiários e, até, trabalhadores menos especializados.

4 - Parece haver muitas repetições de passagens musicais. Nenhum objectivo se consegue repetindo os metais uma passagem que já tinha sido tocada nas cordas. Se todas estas passagens redundantes forem eliminadas a duração total do concerto que foi de duas horas, será reduzida a 20 minutos e não haveria necessidade de um intervalo. Além disso, se o compositor tivesse considerado estes pontos possivelmente teria podido acabar a sua Sinfonia."


(Trevor Thomas; In Diário de Lisboa, 21 de Outubro de 1973)

sábado, 13 de julho de 2013

Quem manda é o PATO


O TEMPO em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio.
Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, a TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam.

Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições.
O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo, a razão por que estavam ali.
Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de secções, reuniões de conselho executivo, etc… escolheram o seguinte currículo: Nadar, Correr, Voar, Galgar montes e Saltar obstáculos.

Os primeiros alunos foram o Cisne, o Pato, o Coelho e o Gato.

Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do mesmo. Faziam, assim jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:

O Cisne, nas aulas de correr, voar e galgar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e desgaste psicológico despendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era o máximo.

O Coelho, por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar se não tinha asas? Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galgava montes.

O Gato tinha problemas idênticos aos do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter êxito.

Só que o professor não estava contemplado no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.

O Pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem mas muito pior do que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos. Não tinha reprovações a nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas, o que o fazia sumamente brilhante nas pautas finais.

Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos “atributos”, até fomentaram nele a esperança de um dia, poder vir a ser professor.

Os restantes alunos estavam inconformados! Nada tinham contra o pato, gostavam dele, compreendiam o seu grau mínimo de suficiência a todas as disciplinas, mas, perguntavam-se: a espantosa capacidade do Coelho em saltar obstáculos, correr e galgar montes, não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA?

E o Gato? De nada lhe serviria correr e saltar melhor do que o Pato? E que utilidade teria, para o Cisne, nadar como nenhum outro?

Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. A escola, pensavam eles, era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a pô-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de não servirem para nada? Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem no ano seguinte, estariam exactamente na mesma situação.

Os professores lamentaram muito. Havia um programa, superiormente estabelecido e a questão era só esta: ninguém tinha média igual à do Pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.
Os outros alunos abandonaram a escola. Desde então, por razões óbvias, a escola atrai mais os patos e, na sociedade, são eles que a dominam.


in Noesis, nº 20, Setembro de 1991
Cortesia de Manuela Silveira.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uma lei para filhos...

Para onde caminha a Humanidade? Que gente é esta que deixou de possuir valores tão simples como os de amar e respeitar os seus progenitores, a pontos de ter de ser criada uma lei, neste caso na China, mas que se deveria estender ao mundo inteiro, para que os filhos visitem os pais?


A sociedade cultural chinesa, baseada na filosofia de Confúcio, dita que o filho homem deve cuidar financeiramente dos seus pais, enquanto que o bem estar dos mesmos é da função da nora. O processo de urbanização, porém, possibilitou maior mobilidade social, já que os pais ficaram nos vilarejos rurais, enquanto que os filhos foram trabalhar nas cidades, e a mulher entrou no mercado de trabalho. Não há, portanto, tempo para a mulher cuidar dos sogros.
Por isso, a actual situação de abandono de idosos é tão crítica, que foi necessária a criação de uma lei de amparo, que entrou em vigor no último dia 1º de Julho e pune com cadeia os filhos que não visitarem os pais idosos.
A lei determina que os filhos adultos prestem cuidados mínimos aos seus pais, e um dos itens diz que eles nunca devem renegar ou ignorar as pessoas mais velhas, e que devem zelar pelas suas "necessidades espirituais".
Se desrespeitarem esta lei, que já vigora, os filhos poderão ter de pagar multas ou, em casos extremos, ir parar à prisão.
A nova lei faz parte dos ‘Direitos dos Idosos’ da China, documento que tenta evitar o abandono de idosos, um problema que se agrava naquele país e infelizmente em quase todos. As visitas devem ser periódicas, mas há questões na lei que ficaram por esclarecer, o que suscitou dúvidas.
Desde logo a periodicidade das visitas. Não se sabe qual é a frequência com que os filhos devem visitar os idosos, pelo que as fronteiras do abandono terão ficado por definir, no novo quadro legal.
No entanto, esta legislação na China deverá ter um mérito inquestionável: transmitir uma mensagem de que o idoso deve merecer acompanhamento.
Com o agravamento do envelhecimento demográfico da China, há cada vez mais pessoas a questionar a política de protecção social aos idosos, que antigamente era suportado pelo Estado mas que depois foi decidido serem os filhos a sustentá-los.
Com a nova lei, o Governo chinês empurra toda a responsabilidade para os filhos, porém não se sabe quem poderá ajudar aqueles que perderam os seus filhos únicos…

terça-feira, 2 de julho de 2013

Nem tudo o que parece...

No compartimento do comboio, entrou um casal ainda jovem, onde já se encontravam sentados outros dois passageiros.
Quando o comboio começou a andar, um homem ainda novo, com cerca de vinte e muitos anos, que estava a olhar com toda a atenção pela janela, a certa altura gritou todo excitado:
- “Pai, olha as árvores a andarem para trás!”
O pai esboçou um leve sorriso de assentamento, mas o casal abanou a cabeça com ar de reprovação.
Daí a instantes, o jovem voltou a exclamar com um ar espantado:
- “Pai, repara nas nuvens! Estão a seguir-nos…”
O casal não resistiu ao comportamento infantil do jovem homem e, pensando que ele era mentalmente deficiente, esboçaram um sorriso compassivo e perguntaram ao pai:
- “O senhor desculpe, mas porque não leva o seu filho a um bom médico?”
O homem encarou-os benevolente e, com um meio sorriso, desabafou:
- Ah sim, nós acabámos de vir do hospital, onde o meu filho recebeu uns olhos novos, pois ele era cego de nascença. É a primeira vez que ele olha para o mundo…”

Moral:
Cada pessoa tem a sua história. Não devemos julgar as pessoas antes de as conhecer, porque a verdade pode surpreender-nos.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Vai um chau min?



Quem não gosta de um delicioso chau min? Nem todos os restaurantes o sabem fazer crocante e saboroso como “deve ser”.  
Os apreciadores encontram-na agora só nos mercados, junto de produtos de soja ou nas tasquinhas antigas, que têm receitas tradicionais.
Existem várias qualidades de min já que esse é o termo que designa genericamente a massa feita de trigo. Aplica-se, por exemplo ao pão (min pau), e mesmo aos “diabos fritos em óleo” — que hoje se designam por tchá-min (massa frita) para, ao que parece, evitar a agoirenta referência ao “rabudo” na linguagem do dia-a-dia… não vá ele tecê-las! 
As massas têm espessuras diferentes e por vezes variam também os “aromatizantes” naturais incluídos no seu fabrico. Uma delas, bastante antiga e muito apreciada em Macau, é a que inclui camarão, há-tchí-min.
Mais apreciada ainda, mas para servir em caldos requintados e em banquetes, é a ii-min, massa mais fofa (dir-se-ia que oca) que na fase de fabrico, passa por uma leve fritura em óleo antes de ser entregue aos clientes, lao-min refere-se à modalidade de massa fresca, que é também banhada em óleo pelo grossista, pronta a servir aos vários vendilhões, tendinhas e casas de pasto.
O segredo de um bom chau min, é não deixá-la cozer demasiado, e a massa deve ser “constipada” ou seja, dar-lhe uma fervura, depois passá-la num passador por água fria e secá-la bem antes de a fritar por poucos minutos, sacudindo-a para se soltar.
Há duas formas de fazer o chau-mín: temos o chau propriamente dito, ou seja, torrado e estaladiço, que é regado com os restantes ingredientes envolvidos num molho mais ou menos engrossado com fécula de milho, e o outro, kón-chau, apenas bem revolvido na frigideira, sem deixar torrar, e que incorpora todos os ingredientes, sem qualquer molho, para fazer jus ao nome em cantonense: “frito-a-seco”. É esse o mais comum, o que as cozínhas ambulantes um pouco por toda a Macau, servem, madrugada fora, por uma ninharia.
Ai que saudades daquelas tasquinhas que poliferavam nas ruas de Macau, que eram montadas nos passeios à noite e que nos deliciavam com os mais variados petiscos.
Nos anos 80/90 havia imensas tasquinhas dessas “semeadas” pelos passeios, a que os portugueses chamavam “caixotes do lixo”, por muitas vezes os contentores do lixo estarem ali perto… Foi numa rua, perto do Mercado Vermelho, que comi o melhor chau min da minha vida.
Tempos que já não voltam…

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pequenas bonecas de luxo...


Um dia destes, assisti no canal televisivo da TV World, a um daqueles concursos televisivos infantis dos Estados Unidos, que me deixou boquiaberta, pelo desfile de “bonecas” de carne e osso, que agora está na moda e cujo lema é "que vença a mais sofisticada".
Mostraram os bastidores desses concursos de beleza infantis e as meninas iam sendo entrevistadas de uma forma adulta, uma delas confessou que adorava estar assim maquilhada e vestida, sentia-se feliz quando ouvia o público aplaudir o seu desfile, que queria ser como a Isabella Barrett e ter tanta fama e riqueza como ela.... Com cinco anos e é esta a ambição dela?! Que raio de ideias metem na cabeça destas crianças?
Fico pasmada como é possível haver um  tal programa, onde crianças a partir dos 4 ou 5 anos são preparadas para concursos, nada próprios para essa idade.
É um facto, que têm despertado algumas polémicas, pelo excesso de exposição destas menores de idade, muitas vezes levados a cabo pela vontade de mães frustradas, com a sua própria infância e que espelham nas filhas, o desejo de serem reconhecidas em processos de beleza, sem se importarem naquilo que essa criança se tornará mais tarde.
Estes concursos deviam ser PROIBIDOS.
É o gritante caso da Isabella Barret, que se tornou num ícone para outras crianças (ou para as suas mães?). Tem apenas seis anos, possui milhões de dólares e uma linha de jóias, roupas e maquilhagem para crianças. Como conseguiu tudo isto?
Através dos tais polémicos concursos de beleza infantis, muito em voga nos Estados Unidos, que acostumaram esta criança a conviver com a fama, com um estilo de vida cheio de luxo e glamour, permitindo inclusive, que participasse de um reality show, tornando-se numa “Little Miss America”, que sai em muitas revistas, jornais e em programas diversos na TV.
A carreira de Isabella começou aos quatro anos, na sua cidade, na Providence, Rhode Island, quando a sua mãe, Susanna, se apercebeu futuro promissor que poderia ter a filha como rainha da beleza infantil e inscreveu-a num concurso. Desde então, Bela, como é chamada, não pára, uma vez que a presença em concursos ou eventos é quase que uma garantia de sucesso. Isto valeu-lhe o convite para ser a cara de uma linha de brinquedos da rede americana Toys R Us.
Já lançou a sua própria empresa de jóias, a Glitzy Girl, e depois acrescentou uma linha de roupa e maquilhagem. O negócio conta com 42 empregados e acaba de facturar um milhão de dólares
- "Quem não gostaria de ser milionária?", disse a pequena numa entrevista ao Daily Mail. - "Sou uma super estrela, tenho a minha própria linha de jóias e simplesmente gosto de ser a chefe. Nunca perdi nada e em cada concurso que entrei, ganhei. Mas o que mais gosto são dos sapatos. Tenho mais de 60 pares", confessa a mini vedeta. 
Susanna Barrett, a mãe, incentiva a fama da criança e deixou-se seduzir simultaneamente com o sucesso da pequena Isabella, que já tem manias de diva. Por exemplo, a pequena fez um pedido de um prato que custava 2.200 dólares para a sua suíte de luxo, num dos hotéis cinco estrelas, onde se costuma hospedar quando viaja para os concursos. Usa vestidos desenhados especialmente para ela -10.000 dólares cada um-, segundo ostenta a sua orgulhosa mãe.
Susanna de 39 anos também mandou realizar uma prótese dentária móvel para o dente de leite que caiu, extensões de cabelo, unhas acrílicas e sessões regulares de raios UVA, para a manter sempre bronzeada.
- "Gastamos mais de 50.000 dólares quando começou a concorrer, mas olhem onde está agora; valeu a pena!", assegura a mãe, que é um constante alvo de críticas por "sexualizar" a sua filha e ganhar dinheiro com isso. Ela, não obstante, afirma que tudo é desejo da menina.
Mas uma menina com seis anos tem desejos destes? E... alguém tem dúvida qual será o futuro desta criança? Eu não tenho! A menina vai crescer com os valores distorcidos, e o resultado, quando a fama desaparecer, vai ser levada ao álcool e às drogas, como todos os outros exemplos de crianças que ficaram famosas.
E não há ninguém que prenda esta mãe?

terça-feira, 18 de junho de 2013

Desengano

Não rio para troçar de vós,
Palhaços histriões,
Hipócritas figurões,
Arranjistas tão inchados
como bolas de sabão.

Rio de mim,
Que me visto de arlequim,
A ver se não dou nas vistas
Desta minha inquietação…

Eu sei que na vida, é preciso disfarçar.
E eu quero esconder de vós
A minha alma,
Tonta menina sem calma
Que não se deixa macular.

Não rio dessa que tem,
o esgar em vez de sorriso
A traição atrás do beijo.
Daquela que traça o caminho
Entre o interesse e o desejo

Rio sim, desta verdade
(que é quase religião)
Desta fantasia louca
Que anda em mim a passear
E me leva pela mão
Obrigando-me a escutar
Cantigas de enlouquecer
Onde tudo quanto é bom
Ainda pode acontecer

Rio sim
Para essa imagem
Risonha ou tristonha
A transbordar do infinito
Que eu vejo no espelho
Quando me fito

Não rio da mascarada,
Suada,
Que luta e empurra
Apenas para passar
Porque algo mais apetece
E blasfema em voz rouca
Rio do beijo e da prece
Que ainda tem a minha boca