
...ela falava sozinha e ria,
ria muito.
tinha as mãos cobertas de anéis, nos braços
usava uma sacola gasta,
cheia de não sei o quê.
Falava sozinha e ria, ria muito.
Os cabelos eram de um amarelo sujo e as
mãos enrugadas.
Os pés, esses, eram pequeninos, calçados
dentro das chinelas quase sem solas
gastas pelo constante caminhar.
E ela ria, e eu gostava de vê-la rir,
de vê-la sorrir
e gesticular, assim sozinha,
assim para nada e para ninguém.
- estás perdoado - dizia
- estás perdoado...
- enquanto a sua mão tremia e os seus olhos
marejavam.
- estás perdoado...
- repetia, enquanto seus braços se abriam
e os olhos de todos a perseguiam.
E eu queria ser louca, tão louca quanto ela,
e como ela, não ver, não ouvir, abstrair-me
de todos e de tudo, até do tempo.
E eu quis perdoar, como ela.
E eu quis...
De repente deixei de rir, deixei de gostar de a ver
rir e gesticular, assim sozinha, assim para nada e para
ninguém.
E de repente vem o inverno e eu sinto o frio do vento
que me conta velhas histórias
que eu não quero ouvir.
Às vezes chego pensar que a loucura é um caminho
fácil de sobrevivência.
É uma fuga, para o nada
que não se quer viver.
Olá querida Irene!
ResponderEliminarGostei muito deste texto, tantas vezes que penso igual...
beijinhos, tenho imensas saudades tuas, mas como sabes as coisas estão difíceis...
Nicole