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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ainda o Acordo Ortográfico...

O novo Acordo Ortográfico começou a ser aplicado nos documentos do Estado em 2011, vigorando em todos os serviços, organismos e entidades na tutela do Governo português.
No meio do marasmo dos que se dizem adversários do acordo ortográfico, mas continuam a aplicá-lo no dia-a-dia porque “não há outro remédio”, a posição de Vasco Graça Moura (que sempre se opôs ao AO com fundamento) é digna de aplauso: no CCB, onde já se aplicava o AO, deu ordens para voltar atrás. Se outros tivessem a sua coerência, tudo seria bem diferente em Portugal
No entanto, existem ainda instituições que não o aplicaram, como a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, reforçando, o Centro Cultural de Belém, que voltou atrás na decisão depois do novo presidente Vasco Graça Moura ter ordenado que todos os conversores – ferramenta informática que adapta os textos ao acordo – fossem desinstalados dos computadores da instituição.
Desde então, a discussão tem estado em aberto, tendo surgindo cada vez mais vozes contra a aplicação do acordo.
Entretanto, o tema chegou às páginas do jornal angolano de capiatais públicos, depois da reunião, em Lisboa, dos ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde se pode ler que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas, só porque possui mais falantes ou, uma indústria editorial mais pujante”.
No editorial, o jornal escreve que a questão do Acordo Ortográfico foi um dos temas debatidos na reunião de ministros, uma vez que a Angola e Moçambique, ainda não o ratificaram.

O jornal, dirigido por José Ribeiro, escreve que, é importante que todos os países “respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras, só porque o difícil comércio das palavras assim o exige”, arrebatando assim o argumento de que o Acordo Ortográfico, servirá para aproximar as comunidades de língua portuguesa.

“Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais”, defende o editorial, acrescentando que “do ‘português tabeliónico’ aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas”.
Exemplificando, o jornal recorre ao quotidiano dos jornalistas:
- “Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português”,
- escreve o jornal, defendendo exactamente que os mais sábios ensinem os que menos sabem.
Para o “Jornal de Angola”, o português falado neste país tem características específicas, “uma beleza única e uma riqueza inestimável”, que devem ser mantidas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia. “Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP”, atesta, concluindo que não é aceitável que através de um qualquer acordo a grafia seja esquecida. “Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”

A decisão de adopção do Acordo Ortográfico (AO) foi tomada em Conselho de Ministros a 25 de Janeiro de 2011, e começou oficialmente a ser adoptado a 1 de Janeiro de 2012, estando prevista a aplicação generalizada do acordo para 2014. Pergunto-me, se é possível neste momento parar a implementação do Acordo Ortográfico, sem prejudicar todas as crianças que já estudam por ele e se é possível fazer reset nas crianças e começar outra vez?
Eis o que penso sobre o assunto:
Estão a tentar fazer reset connosco, adultos... e nós temos muito mais dificuldade de adaptação do que as crianças.

Se o processo se revertesse agora, repito, agora, daqui a 3 meses, os alunos que estão a aprender português, segundo o novo acordo, nem se lembrariam do que lhes estão a ensinar agora, e nadariam como peixe dentro de água no português, que sempre conhecemos.
E já alguém parou para pensar nos custos inerentes a esta brincadeira? Eu tenho imensos volumes na minha casa de macau e em Lisboa, é quase uma mini-biblioteca. Tudo isto é agora, obsoleto. Não é antigo, reparem, isso é outra coisa...
É obsoleto, ou seja, lixo. Milhões de manuais escolares para o lixo!
Milhões de livros de leitura obrigatória no ensino básico e secundário para o lixo!
Milhões de livros editados e apoiados pelo Plano Nacional de Leitura nos últimos 5 anos, para o lixo.
Milhões de clássicos da literatura para o lixo! É isso que esta brincadeira do AO nos custa.

Não está em causa a evolução natural da língua portuguesa! Está em causa o ego demasiado grande de meia dúzia de políticos da treta, que quiseram deixar a sua marca. Bela marca, não há dúvida!

Se for obrigada profissionalmente a usar o novo AO, farei batota sim! Escrevo normalmente e depois utilizo o conversor. Infelizmente, também sou obrigada a decifrar o que se escreve nessa espécie de dialecto. Dou por mim a tentar avaliar rapidamente quantos significados ou se existe sequer algum significado, para aquele aglomerado de letras que me aparece à frente.


A alegada tentativa de facilitar o entendimento entre utilizadores da língua portuguesa nas suas mais diversas variantes, resulta afinal numa comunicação cheia de ruído para os próprios portugueses, enquanto dos outros lados do Atlântico, as comunidades lusófonas assistem indiferentes a toda esta palhaçada.

sábado, 8 de outubro de 2011

omens sem "H"

Manda quem pode... obdecerá quem deve?

Espantam-se? Não se espantem! Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece! A Bahia, felizmente, mantém orgulhosamente o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica mais bonito e porque sim!
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias.
Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as criancinhas... como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.

Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.

(Nuno Pacheco jornalista)

Não tenciono aplicar as regras do novo Acordo Ortográfico! Sou contra e sinto-me revoltada.
A adopção deste Acordo, parece-me medida de uma total inutilidade – as grandes diferenças entre o português europeu e o brasileiro não são de natureza ortográfica –a sintaxe é diferente nas duas normas e continuará a sê-lo e o campo semântico de muitos vocábulos, também.
Os termos e expressões brasileiras que entraram no quotidiano e se integraram na linguagem dos portugueses (cusca, fofoca, curtir, estar numa de, chamar de, viver às custas de…). As expressões brasileiras são normais nas bocas dos brasileiros e ridículas quando papagueadas pelos portugueses. Mas, visto à escala da história, nada disto é grave...
Se pudéssemos viajar para o futuro, talvez ficássemos tristes ao ouvir aquilo em que o português se terá transformado.
Aplicá-lo. Não o aplicar. Cada um que faça o que lhe aprouver.
Eu vou ignorá-lo.

O (Des)acordo Ortográfico

Desde 1 de Janeiro do ano passado, a Língua Portuguesa está unificada! Ou melhor, desde 2009 que estão a tentar unificá-la.
Nesta data, entrou em vigor o Novo Acordo Ortográfico, que visa igualar a escrita do português em países que falam o mesmo idioma. Acentos foram removidos, assim como hífens, formando palavras visivelmente estranhas, mas sonoramente, as mesmas de sempre.
Muitos foram contra esta monstruosidade linguística, pensando na dificuldade em se adaptar às novas regras e não só, a revolta de termos de nos adaptar a uma nova ortografia tendo como modelo o Brasil. Ora se fomos nós, os portugueses, a exportar a língua...
Mas não há remédio: manda quem pode! A escrita mudou, e temos mais algum tempo até que o nosso“antigo” modelo ortográfico seja completamente deixado de lado.
Contudo, alguns meses depois surgiu o Desacordo Ortográfico. Infelizmente, não eram os governos a querer voltar atrás, mas sim uma antologia de contos de autores da Língua Portuguesa organizada por Reginaldo Pujol Filho e publicada pela Não Editora.
Enquanto os livros começavam a ser impressos com as novas regras, a Não quis fazer uma obra que contivesse as diferenças de escrita que o português proporciona.
Entre os autores, estão brasileiros, como Luis Fernando Verríssimo e Xico Sá, portugueses como Patrícia Reis, angolanos como Pepetela e outros autores de diversos países que adoptam o português como língua oficial.
Uma mostra de que, no idioma português, não importa o lugar, as mesmas palavras podem ser interpretadas de formas diferentes, enquanto palavras distintas podem ter o mesmo significado. O Desacordo Ortográfico é recomendado para quem gosta de se aventurar na diversidade que a nossa língua proporciona. Um livro que mostra que unificação alguma irá tirar do Português essa característica.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Acordo ortográfico


Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c, na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, vamos tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio...
Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - "não te esqueças de mim!"
Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade,não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como uma criança que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.