quinta-feira, 7 de julho de 2011

Chá, o néctar dos deuses....

O Chá é um prazer para os nossos sentidos! Tem sido sempre celebrado como um tesouro cultural e uma arte. Ambos se mesclaram por milénios. Originário da China, atravessou desertos e mares, foi trocado por prata e despoletou guerras. Nestas páginas, viajará com exclusividade pelos tempos das cerimónias chinesas e japonesas do chá, ambas seguidas e admiradas por milhares através do mundo. Mas... outros países também têm a sua história, não esquecendo os ingleses, no seu elegante Afternoon Tea, o Tibete, a Rússia e para terminar o chá no Egipto, demonstrando assim que o chá é uma das bebidas mais antigas e mais consumidas em todo o mundo e que faz parte dos hábitos diários de vários povos que o consideram um verdadeiro elixir dos deuses.
A China é o berço e a terra do chá e da sua cultura. Esta, desempenhou um papel importante na cultura tradicional chinesa.
Na História moderna, Macau foi a primeira janela de acesso para que a cultura chinesa do chá se espalhasse pelo mundo ocidental.

ALGUMAS LENDAS:
As origens do chá perdem-se nos tempos e perpetuam-se através de mitos e lendas. Na memória quotidiana do povo chinês é símbolo de bem receber, originando um bom ambiente de convívio e hospitalidade.
A lenda que está ligada à origem do chá como bebida, conta que um dia estava Shen Nong debaixo de uma árvore de camélias quando, sem reparar, caíu uma folha dentro do recipiente onde fervia água. Ao beber a água, notou um desconhecido e agradável sabor, descobrindo assim o chá como bebida.
Durante séculos, muito foi escrito sobre o chá. Folhas de chá faziam parte dos adereços funerários que acompanhavam o morto na sepultura, durante a dinastia Han, entre 206 a.C. a 24 d.C. Segundo o relato de um dos livros mais importantes sobre o chá, "O Chá Chinês", de Wang Dunyan, nessa época, o processo de produção estava dividido entre o colher, escolher, torrar e amassar em forma de bolo.

Antes do chá passar a ser embalado, era antigamente pesado e vendido em pequenas porções nas casas da especialidade. Ainda hoje, em algumas das plantações, há quem o faça, em especial nos considerados medicinais...

O que é o chá
O chá é proveniente das folhas da Camellia sinensis. Actualmente, cerca de 3mil produtos levam o nome de "chá" mas, na verdade, podem ser considerados chás mesmo, somente aqueles que tenham na sua composição a "Camellia sinensis", ou seja, aqueles que nós chamamos chá de hortelã, erva-cidreira e outros tantos, são, para sermos mais correctos, tisanas ou infusões.
A partir das folhas da "Camellia sinensis" é possível obter diferentes tipos de chá e, dependendo do tipo de tratamento a que são sujeitas, dividi-los nas seguintes categorias:
Verde - As folhas vão para a secagem após a colheita. O seu sabor é um tanto amargo. As folhas são apenas passadas pelo calor, imediatamente após a colheita, evitando assim a fermentação. O chá Gyokuro (gotas de orvalho), do Japão, é considerado um dos melhores – as suas folhas são cobertas com uma tela antes da colheita para preservar a clorofila e perderem o tanino, ficando por isso adocicadas.
Preto - As folhas sofrem um processo de fermentação que torna o líquido num tom avermelhado escuro e de sabor intenso. As folhas são colocadas em tanques fechados até fermentarem. A seguir são aquecidas e desidratadas.
Oolong - Sofre um processo de fermentação muito curto. Uma secagem rápida é feita logo após a colheita. Depois as folhas vão para um tanque para fermentar apenas um pouco, uma vez que o processo é interrompido ainda no início. O sabor é suave. Este chá é o menos comum no mundo ocidental.
Aromatizados - Qualquer chá, independentemente do tratamento pelo qual tenha passado, pode receber a adicção de outras folhas, frutos secos ou flores, cujos sabores se misturam e os tornam em chás especiais.

A tradição das casas de chá
Durante muitos anos, a vida social era feita em casas de chá. Algumas dessas casas abria às quatro da manhã e enquanto os patos lacados iam sendo dependurados à porta, enchia-se de uma clientela de uma cidade que não pára, noite e dia.
Muitos desses clientes nocturnos, eram pescadores. Por ali se deixavam ficar, em amena cavaqueira até ao raiar do dia, acompanhados por tigelas de chá e dim sam. A sala ia-se enchendo e às seis e meia era já difícil encontrar uma mesa vazia.
Era a hora normal da chegada dos clientes com os seus pássaros em gaiolas.
As enormes salas amplas, cuja amplitude dificilmente se pode agora conceber nesta cidade onde o espaço, todo ele é aproveitado ao milímetro, permitiam um ambiente dedicado ao convívio através do chá. As ventoinhas colocadas por todo o tecto, removiam o ar abrasador e a quantidade de empregados era grande, tendo cada um as suas funções. Quando um cliente chegava, era-lhe colocada uma tigela cheia de folhas de chá e um bule. Numa grande chaleira, a água fervida era servida às mesas pelo empregado, enchendo os bules que, com a tampa pousada na asa, indicavam precisar de água. Num outro recipiente, cada cliente lavava e escaldava com água os seus copos.
Também a primeira água do forte chá preto de folhas cortadas era vertida para esse recipiente.
Este ritual que era completado com os petiscos de "dim sam" que na tradução, significa "tocar o coração".
A sua origem remete à Rota da Seda, entre os séculos IX e X. Os mercadores paravam em casas de chás para se recompor das cansativas viagens e, como cortesia, os donos ofereciam "dim sam". Era um sinal de apreço, um agrado ao cliente.
Assim, os empregados faziam circular em grandes paletes de bambu com este delicioso petisco. Também se serviam refeições e pelo número de patos que, depenados entravam para a cozinha, parecia ser um prato com muita saída.
Junto à porta, por detrás de um pequeno balcão, o caixa com a ajuda de um ábaco ia fazendo as contas e recebendo dos clientes o dinheiro do consumo. O preço do bule de chá não pagava o convívio. Fechava à uma da tarde. Infelizmente estas casas pertencem a um passado recente. Todas encerraram definitivamente para darem lugar a novos espaços de gentes apressadas que preferem agora os bares, restaurantes, Pizza Huts, McDonald’s...

Visita a uma plantação de chá

Mas ainda há muita boa gente entre chineses e estrangeiros que se interessam por aprender, divulgar e apreciar esta preciosa planta. Algumas Associações abrem cursos para quem queira aprender como preparar, escolher e apreciar o chá.
Depois dos alunos tomarem as suas notas nas aulas, fazem pesquisas em bibliotecas, na Net ou mesmo fazendo algumas entrevistas. Apresentam depois os resultados ao professor, demonstrando assim que aprenderam alguma coisa na teoria.
A seguir, vem a aprendizagem prática, ou seja, os alunos, são levados a um dos imensos campos de cultivo de chá que poliferam na China, e ali, em contacto com a natureza, vão aprendendo a conhecer as plantas, a técnica de recolha e todas as restantes operações até chegar finalmente à sua confecção.
Normalmente, são precisos cinco anos para se começar a colher as primeiras folhas, mas, ao fim de 30 anos o arbusto já é muito velho para produzir. Assim, o tronco do arbusto velho deve ser fendido e enxertado para que continue a produção, atingindo a planta à idade de cem ou mais anos. Na sua forma natural atinge vários metros de altura, mas, quando cultivada, permanece em forma de arbusto, alcançando apenas cerca de um metro. Os quatro a nove primeiros anos levam as sementes a dar origem a arbustos e às folhas a ficarem prontas para a colheita. Segundo Wenceslau de Moraes, no seu livro “O Culto do Chá”, no primeiro ano não se aduba a terra. Só depois se usa fazê-lo com regularidade.
Depois da colheita vem a selecção, a cozedura, a prensagem, a moagem, a moldagem e a secagem. A altura de colher as folhas depende do clima da região, mas o período vai desde o início da Primavera até Outubro. Sempre que vamos em passeio pela China, muitas das vezes está incluída uma visita a uma casa comercial de chá ou mesmo podemos visitar a plantação, se eventualmente essa região vive em função do cultivo do chá, mesmo em pequenas propriedades, numa altitude média e de clima húmido.
Antes de vermos qualquer coisa, somos levados primeiro para uma sala, onde a nossa anfitriã faz uma apresentação muito profissional, falando dos inúmeros benefícios funcionais do consumo do chá e, depois depende da qualidade que estejam a divulgar/vender. Por exemplo, os chineses sabem que os estrangeiros apreciam o chá verde pelos seus poderes medicinais, então ela desfila as vantagens de consumir este chá em função dos polifenóis (substância antioxidante que traz benefícios para a saúde cardiovascular).
Depois vem a demonstração, colocando água num jarro transparente, mais flocos de arroz e iodo num copo, que ganha então uma coloração amarelo escuro. Em seguida adicionou folhas de chá verde ao líquido que, em alguns segundos, ficou de novo transparente!!! Não sei se o chá terá essa intensidade de poder dentro do nosso organismo, mas o impacto visual da “mágica” impressiona sempre! Muitos de nós acabamos por comprar o chá, que ela diz ser “imperial”, por ser o melhor da estação (primavera), mais aromático e fresco que todos os outros.

A preparação e cerimónia do chá

A preparação do chá requer um ritual próprio. Primeiro o anfitrião escolhe as peças que irão ser usadas para preparar o chá. Existem conjuntos de diferentes cores e formatos feitos com diferentes técnicas de cerâmica.
Um verdadeiro estudioso da arte de servir chá, normalmente é um coleccionador e saberá escolher e adquirir estas diferentes peças que possuem características especiais. O anfitrião apresenta aos convidados o recipiente onde coloca as folhas. Se o bule for de colecção, a história do bule é contada, como foi feito, onde foi encontrado, como foi adquirido, etc. Os convidados apreciam o bule. A seguir o anfitrião mostra o chá que será preparado. O chá mais popular na China é o verde (bancha), seguido do oolong e do chá preto, que os chineses chamam “chá vermelho” (hongcha).
A seguir o anfitrião deita a água quente da chaleira (que deve ter um bico curvo) por cima das folhas de chá a uma determinada distância. Esse primeiro chá é deitado fora pois trata-se da lavagem das folhas. Volta a repetir a operação e verte este segundo líquido em copinhos compridos (como mostra a foto) passando-os aos convidados para que estes aspirem o seu vapor e assim apreciem o aroma antes de o beber.
Em seguida vai deitando o líquido desses copos altos nas pequenas e delicadas chávenas de louça que estão dispostas em círculo sobre o tabuleiro. As chávenas não devem ser servidas com o chá uma a uma, mas todas de uma vez. A água quente é derramada sobre as folhas do chá num único fio - não se pode deixar a água formar bolhas para que não faça espuma.
É preciso muita perícia neste acto, para não derramar o chá no tabuleiro e não pode sobrar água no bule, pois a prolongada imersão das folhas deixa um sabor amargo no chá.
Os chás de boa qualidade possuem um aroma rico e um sabor diferente do aroma. Após essa primeira rodada de chá, o bule é novamente cheio com água quente e retoma-se o processo, uma vez que as folhas de chá de qualidade permitem que se prepare cinco a seis rodadas de bebida.

1 comentário:

Kinha disse...

Oi querida, vim agradecer pelo texto da Cora Coralina. Adorei, assim como adoro ver voce sempre pelo meu bloguito. E inspirada no seu post sobre chás (muito bem escrito, por sinal) vou fazer um chazinho de maracujá pra ver se me passa essa vontade de comer tudo que vejo pela frente, rs
:)
Grande abraço, querida!