terça-feira, 31 de março de 2009

Desencontros


Os hindús contam esta história bonita:
No princípio dos tempos, uma grande nuvem espiritual envolvia o mundo constituindo assim a essência suprema, e, cada criança ao nascer, recebia uma generosa parcela desse misterioso ectoplasma que descia sobre ela e passava a ser a sua alma.
Com o passar dos séculos, as populações foram aumentando e já não havia grandes porções de alma para dividir com todos os que nasciam.
Então, começaram a aparecer na Terra, milhares, milhões de pessoas com almas pequenas. Mas até hoje e de vez em quando, um engano acontece, e ainda sobra um pedaço maior de alma para determinados seres humanos. Assim, nascem aqui e ali, criaturas de almas grandes que se distinguem pelas suas grandes causas humanitárias.
Por toda parte, na terra, em países diversos, essas pessoas de almas grandes reconhecem-se e sentem-se atraídas ao verem-se pela primeira vez. São, em geral, simpáticas, inteligentes, honestas, identificam-se imediatamente umas com as outras, como se fossem irmãs. Os casos de amor ou amizade à primeira vista, constituem provas concretas de que estas grandes almas existem.
A angústia de viver está em que, no caso de serem almas grandes, passam, às vezes, uma vida inteira sem encontrar as parceiras genuínas, aquelas pessoas perfeitamente aptas e que se identificam quase logo no primeiro olhar, tornam-se as maiores amigas, ou nas grandes paixões.
E podem estar à nossa espera ali na esquina, ou num bairro que não frequentamos, ou ainda numa cidade que não visitamos.
Se não houvesse tanta maldade e as pessoas fossem mais simples e francas, o mundo seria bem melhor se, ao encontrar essa "metade" dissessem simplesmente:
-Olhe...simpatizei consigo... Quer ser meu amigo?

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Eremitão


O Eremita, é uma pessoa que vive longe das cidades para fugir ao trato social. Normalmente refugiam-se nas montanhas ou em ermos, com intuitos contemplativos, dedicados a Deus.
Uma vez que se dedicam só à oração e à penitência, este nosso eremita queixava-se constantemente que tinha muito que fazer.
Perguntaram-lhe um dia, como era possível ter tanto trabalho, uma vez que vivia naquela solidão?!
Então ele desabafou: “- Ah não julgue que é fácil, porque todos os dias tenho de domar 2 falcões, treinar 2 águias, manter quietos 2 coelhos, vigiar 1 serpente, acartar com 1 asno e aquietar 1 leão.”
Admirado, o visitante tornou a perguntar-lhe: “- Mas não vejo, nem me consta que nenhum desses animais de que falas habitem por aqui. Onde estão então esses animais?”
“- Estes animais de que falo, todos os homens os têm. Os 2 falcões que se lançam sobre tudo o que aparece, seja bom ou mau, tenho de os domar, para que só se fixem numa boa presa: são os meus olhos!
As 2 águias ferem e destroem com as suas garras. Tenho de as treinar de forma a tornarem-se úteis e ajudarem sem ferir: são as minhas mãos!
O 2 coelhos querem ir para onde lhes agrada, fugindo dos demais e esquivando-se das dificuldades. Tenho de lhes ensinar a ficar quietos, mesmo que seja penoso, problemático ou desagradável: são os meus pés!
O mais difícil é vigiar a serpente, apesar de ela estar presa numa jaula de 32 barras. Está sempre pronta para morder e envenenar os que a rodeiam, mal se abra a jaula. Se não a vigio de perto, causa danos, talvez irreparáveis: é a minha língua!
O burro, é o mais obstinado e não quer cumprir com as suas obrigações. Alega estar cansado e recusa-se a transportar a carga de cada dia: é o meu corpo.
Finalmente, preciso de aquietar o leão que quer ser o rei e o mais importante. É rebelde, vaidoso e orgulhoso: é o meu coração!
Portanto, há muito que fazer…

(Adaptado de autor desconhecido)

domingo, 29 de março de 2009

Uma gota de chuva


Uma gota de chuva
Ficou presa pelo fio
Faiscando à luz do sol
Até se evaporar

Tive pena daquela gota pequena
Que por alguns instantes
Brilhou mais
Que o mais puro brilhante
Para em seguida se apagar...

Quanta gente existe no mundo
Que alardeia virtudes
Que são como gotas de chuva
De efêmero brilhar

Quantas coisas sonhamos
Um dia poder realizar
Porém, como as gotas de chuva
Os sonhos se desfazem
Ao despertar...

sábado, 28 de março de 2009

Loucura?


...ela falava sozinha e ria,
ria muito.

tinha as mãos cobertas de anéis, nos braços
usava uma sacola gasta,
cheia de não sei o quê.

Falava sozinha e ria, ria muito.

Os cabelos eram de um amarelo sujo e as
mãos enrugadas.
Os pés, esses, eram pequeninos, calçados
dentro das chinelas quase sem solas
gastas pelo constante caminhar.

E ela ria, e eu gostava de vê-la rir,
de vê-la sorrir
e gesticular, assim sozinha,
assim para nada e para ninguém.

- estás perdoado - dizia
- estás perdoado...

- enquanto a sua mão tremia e os seus olhos
marejavam.

- estás perdoado...
- repetia, enquanto seus braços se abriam
e os olhos de todos a perseguiam.

E eu queria ser louca, tão louca quanto ela,
e como ela, não ver, não ouvir, abstrair-me
de todos e de tudo, até do tempo.

E eu quis perdoar, como ela.

E eu quis...

De repente deixei de rir, deixei de gostar de a ver
rir e gesticular, assim sozinha, assim para nada e para
ninguém.

E de repente vem o inverno e eu sinto o frio do vento
que me conta velhas histórias
que eu não quero ouvir.

Às vezes chego pensar que a loucura é um caminho
fácil de sobrevivência.

É uma fuga, para o nada
que não se quer viver.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Passagem do tempo


Pais heróis – Mães heroínas do lar. Passamos parte da nossa vida a cultivar este tipo de estereótipos.
Até que um dia… o pai herói começa a passar o tempo todo sentado resmungando baixinho e puxa assuntos sem pés nem cabeça.
A heroína do lar começa a ter dificuldade em concluir as frases e começa a implicar com banalidades.
Que lhes aconteceu?
Envelheceram.. ninguém nos havia preparado para isso! Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo. Agora chegou a vez deles serem cuidados e mimados por nós, nem que para isso recorram a uma chantagenzinha emocional.
Deixam de fazer planos a longo prazo e passam a dedicar-se a pequenas aventuras, como comer às escondidas aquilo que o médico proibiu.
Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos. Caducos são os filhos que têm relutância em aceitar este ciclo de vida.
É complicado aceitar que os nossos heróis já não têm o controle da situação. Estão gastos, frágeis, esquecidos, têm esse direito, mas continuamos a exigir deles a mesma energia, não admitimos as suas fraquezas e desânimo.
Ficamos irritados, e alguns filhos chegam mesmo a gritar se eles se atrapalham com alguma tarefa e ainda sem paciência para ouvir pela milésima vez a mesma história que contam como se acabassem de a ter vivido. Ficamos irritados, quando eles se esquecem de tomar os seus remédios, deixando-os a chorar, tal qual as crianças que fomos um dia…
Em vez de aceitarmos com serenidade o facto de que eles adoptam um ritmo mais lento com o passar dos anos, ficamos agastados por eles terem traído a nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como super-heróis.
Provocamos discussões inúteis e eles ficam nervosos com a nossa insistência para que tudo continue igual ao que sempre foi.
Essa mesma intolerância só pode ser medo! Medo de perdê-los e medo de nos perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais.
Façamos por eles hoje, o melhor, o máximo que pudermos para amanhã, quando eles partirem, lembrarmo-nos com carinho dos seus sorrisos de alegria perante a nossa tolerância e não das lágrimas de tristeza que derramaram por nossa causa,.
Afinal, os nossos heróis de ontem, serão heróis eternamente.

Uma pessoas permanece jovem na medida em que ainda é capaz de aprender, adquirir novos hábitos e tolerar as contradições. Marie Von Ebner-Eschenbach

quinta-feira, 26 de março de 2009

Abandono


Deixaste-me esta cadeira vazia!
Esta cadeira onde tantas vezes te sentaste...
Hoje é apenas uma cadeira sem serventia,
uma cadeira que tu usaste.
Deixaste-me aquele pedaço de tapete,
onde nos abraçámos e chorámos.
Aquele pedaço de chão onde um dia nos amámos.
Hoje é apenas um pedaço de chão que gastámos.
Deixaste-me um quarto de paredes enrugadas.
Um quarto onde o teu corpo nu era meu e toda eu,
era as tuas mãos suadas.
Hoje não é mais do que quatro paredes pálidas de tão choradas.

Deixaste-me aquele recanto.
Aquele onde me sentava e via a água escorrer na tua imagem.
Onde te contemplava como se fosses uma miragem.
Hoje é o poiso do meu desencanto.
Deixaste-me lugares cheios da tua ausência.
Cheios de nada.
Lugares onde a tua boca, que hoje me matou,
ficará para sempre por mim beijada.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Diário de uma dieta


Querido Diário: Vou começar a fazer dieta hoje.
Preciso de perder dez quilos. O médico aconselhou-me a escrever um diário, onde devo apontar tudo aquilo que como e falar sobre o meu estado de espírito.
Estou entusiasmada e sinto-me de volta à minha adolescência. Por mais sofrimentos que a dieta implique, vou-me sentir compensada quando conseguir caber naquela roupa toda que comprei há dois anos e que puz de parte. Vai ser óptimo!
1.º dia de dieta: Um triângulo de queijo magro. Um copo de diet shake. O meu humor está óptimo. Sinto-me mais leve. Uma ligeira dor de cabeça, talvez.
2.º dia de dieta: Uma salada de alface. Uma torrada de pão integral. Um iogurte. Ainda me sinto muito bem. A cabeça dói-me um pouco mais, mas não é nada que uma aspirina não resolva.
3.º dia de dieta: Acordei a meio da madrugada com um barulho esquisito. No princípio, ainda pensei que fosse algum ladrão, mas depois percebi que era o meu próprio estômago a roncar tão alto, que até metia medo. Bebi um litro de chá e passei o resto da noite a levantar-me para ir à casa de banho. Nota: Nunca mais tomo chá de camomila!
4.º dia de dieta: Estou a começar a odiar as saladas. Sinto-me como se fosse uma vaca a mastigar ervas. Ando um tanto irritada. O tempo também não ajuda. A minha cabeça parece um tambor. A Micá comeu uma pizza hoje ao almoço. Mas eu resisti. Nota: Odeio a Mica!
5.º dia de dieta: Juro por Deus que, se vir mais algum triângulo de queijo magro à minha frente, vomito! Ao almoço, senti como se a salada se estivesse a rir de mim. Hoje gritei com o José e com a Micá! Preciso de me acalmar e de me voltar a concentrar. Comprei uma revista com a Sofia Aparício na capa. Não posso perder de vista o meu objectivo.
6.º dia de dieta: Estou um caco! Não dormi nada esta noite. E o pouco que dormi, sonhei com pudim de ovos. Estou capaz de matar, por causa de um pastel de nata, hoje...
7.º dia de dieta: Fui ao médico. Emagreci 250 gramas! Cabrão! Andei a semana toda a comer ervas, só me falta mugir e ele ainda me diz que perdi 250 gramas! Ele explicou-me que isto é normal: as mulheres demoram mais a emagrecer e ainda mais na minha idade. O filho da p**** chamou-me gorda e velha!
Nota: Procurar outro médico.
8.º dia de dieta: Fui acordada hoje por um frango assado. Juro! Ele estava à beira da minha cama, a dançar o can-can.
Nota: O pessoal lá do escritório hoje olhou para mim com um ar esquisito
9.º dia de dieta: Não fui trabalhar hoje. O frango assado voltou a acordar-me, desta vez a dançar a dança do ventre. Passei o dia no sofá a ver TV. Acho que estou a ser vítima de uma conspiração: todos os canais passavam receitas culinárias. Ensinaram a fazer tarte de maçãs, salame de chocolate e sanduíches variadas e criativas, para fugir à rotina.
Nota: Comprar outro controle remoto: num acesso de fúria, mandei o meu pela janela fora.
10.º dia de dieta: Meu Deus, como eu odeio a Sofia Aparício!!!
11.º dia de dieta: Dei um pontapé no cão da vizinha. Gritei com a mulher da limpeza. O José já não entra na minha sala. As Secretárias encostam-se à parede quando eu passo.
12.º dia de dieta: Hoje andei todo o dia a sopa.
Nota: Nunca mais jogo póquer com o frango assado. Ele faz bluff.
13.º dia de dieta: A balança não se mexeu. Ela não se mexeu! Não perdi nem um mísero grama! Desatei a rir à gargalhada. Assustado, o médico sugeriu um psicólogo. Acho que chegou a falar em psiquiatra. Será por eu o ter ameaçado com um bisturí?
Nota: Não volto mais ao médico, o frango acha que ele é um charlatão.
14.º dia de dieta: O frango apresentou-me uns amigos dele. O senhor bife é óptimo e a torta de amêndoa, embora meio enfezada, é um doce.
15.º dia de dieta: Matei a Sofia Aparício! Cortei-a em pedacinhos, a ela e a todas as fotos de modelos escanzeladas que tinha em casa. Nota: O frango e os seus amigos estão chateados comigo. Comi um pedaço do Sr. Pão. Mas foi em legítima defesa. Ele ameaçou-me com um pedaço de salame.
16.º dia: Terminei a dieta! Chateei-me com o frango e comi-o, acompanhado com o pão. Terminei com a tarte! Ela era realmente um doce!
E VIVAM AS GOOORRRDAAASSSS

terça-feira, 24 de março de 2009

Ao mar


...contemplo-te
agora calmo, calado!

Ao cair da noite
perdes-te na imensa
escuridão,
e igualas-te numa
comunhão quase
perfeita.

Na tua vasta imensidão,
és dono de ti mesmo,
como se um Deus fosses,
Zeus ou Neptuno,
geras, crias e destróis.

É imenso o teu poder!

E conheço-te tão bem...
enraivecido,
turbulento ,
sereno ,
cristalino.

Conheço a música alegre
e triste que cantas.

Oiço esse teu marulhar...
são os teus lamentos
e as cores que usas
para os disfarçar.

És um ouvinte silencioso
dos meus lamentos
em prantos.

Admiro-te e amo-te, por isso!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Céu e Inferno



Um Samurai alto e forte, de carácter violento e rude, foi procurar um pequeno Monge, calmo e muito pacífico.
- «Monge” - disse autoritariamente – “ensina-me o que é isso do “Céu” e do “Inferno”!
O Monge, franzino, olhou para o temível guerreiro e respondeu com a mais absoluta calma:
- «Ensinar-te algo sobre o céu e o inferno? A ti? Nem pensar! Eu não te posso ensinar coisa alguma! Olha bem para ti, estás imundo, diria mais, nojento! O teu cheiro é insuportável.
A lâmina da tua espada está enferrujada, és uma vergonha, uma humilhação para a classe dos Samurais. Some-te da minha vista! Não consigo suportar a tua presença horrorosa!”
O Samurai nem queria acreditar no que estava a ouvir. Por instantes ficou boquiaberto, mas logo reagiu às palavras do pequeno Monge que fizeram eco dentro de si e a fúria veio à superfície como um vulcão quando entra em erupção.
Então o Samurai estremeceu de ódio, o sangue subiu-lhe ao rosto, e mal conseguiu dizer uma só palavra de tanta raiva.
Num gesto rápido, empunhou a espada enferrujada, ergueu-a sobre a cabeça e preparou-se para decapitar o Monge.
Nesse mesmo instante o Monge disse-lhe sem pestanejar:
- «Pronto! Aí tens...isso é o Inferno.»
O Samurai, mais uma vez, ficou pasmado e deteve-se. Testemunhou a serenidade, a compaixão e absoluta dedicação daquele pequeno homem, que colocou a própria vida em risco para lhe ensinar algo.
O Guerreiro baixou lentamente a espada e, cheio de gratidão subitamente pacificado pela sabedoria daquele ser, baixou os olhos e a cabeça numa atitude de humildade.
Nesse mesmo segundo, o Monge disse-lhe com serenidade:
- «Aí está...isso é o Céu.»
Os ensinamentos orientais que graças a Deus existem, para nos ensinar o doce caminho da paz interior.

domingo, 22 de março de 2009

Crianças...


Há alguns anos, quando o meu marido regressava a casa de uma das suas viagens, eram já 2 da madrugada. Estava um temporal terrível com relâmpagos, trovões, chuva torrencial que fustigava furiosamente os vidros das janelas.
Quando o meu marido entrou no quarto, viu que os nossos dois filhos dormiam comigo por terem medo da trovoada.
Ele, para não nos acordar e, dado o avançado da hora, resignou-se a ir dormir no quarto deles.
No dia seguinte, depois de passar o entusiasmo da chegada do pai, ele, muito sério falou com os filhos sobre o acontecimento da véspera:
- "Eu percebo que tenham medo da trovoada e que procurem conforto junto da vossa mãe e dormiram com ela, tudo bem... mas quando eu estiver para chegar, por favor, durmam no vosso quarto, porque venho muito cansado da viagem e eu não consigo dormir nas vossas camas."
Semanas depois, estava o meu marido para chegar de outra viagem, decidimos fazer-lhe uma surpresa e fomos esperá-lo ao aeroporto.
Como estavam vários voos atrasados, havia imensa gente à espera no terminal.
Quando ele apareceu no vestíbulo, o meu filho mais velho viu-o e começou a gritar e a correr na direcção do pai:
"- Olá papá, eu tenho óptimas notícias - gritava ele em plenos pulmões todo excitado. O pai acenou-lhe sorrindo e gritou de volta: - "Que boas noticias?" Ele então, entusiasmado, gritou ainda mais alto: - "Ninguém dormiu com a mamã desta vez, enquanto estiveste fora!"
O silêncio que se fez na gare, foi brutal...