sábado, 28 de março de 2009

Loucura?


...ela falava sozinha e ria,
ria muito.

tinha as mãos cobertas de anéis, nos braços
usava uma sacola gasta,
cheia de não sei o quê.

Falava sozinha e ria, ria muito.

Os cabelos eram de um amarelo sujo e as
mãos enrugadas.
Os pés, esses, eram pequeninos, calçados
dentro das chinelas quase sem solas
gastas pelo constante caminhar.

E ela ria, e eu gostava de vê-la rir,
de vê-la sorrir
e gesticular, assim sozinha,
assim para nada e para ninguém.

- estás perdoado - dizia
- estás perdoado...

- enquanto a sua mão tremia e os seus olhos
marejavam.

- estás perdoado...
- repetia, enquanto seus braços se abriam
e os olhos de todos a perseguiam.

E eu queria ser louca, tão louca quanto ela,
e como ela, não ver, não ouvir, abstrair-me
de todos e de tudo, até do tempo.

E eu quis perdoar, como ela.

E eu quis...

De repente deixei de rir, deixei de gostar de a ver
rir e gesticular, assim sozinha, assim para nada e para
ninguém.

E de repente vem o inverno e eu sinto o frio do vento
que me conta velhas histórias
que eu não quero ouvir.

Às vezes chego pensar que a loucura é um caminho
fácil de sobrevivência.

É uma fuga, para o nada
que não se quer viver.

1 comentário:

Rio disse...

Olá querida Irene!
Gostei muito deste texto, tantas vezes que penso igual...


beijinhos, tenho imensas saudades tuas, mas como sabes as coisas estão difíceis...

Nicole