Mas esta arte nasceu um pouco ao acaso: nos finais da Dinastia Qing, um funcionário viciado em rapé, parou perto de um pequeno templo para descansar. Pegou na sua pequena garrafa de cristal que continha rapé para o cheirar, e achou que já estava vazia. Então, ele na esperança de conseguir mais algum pó, raspou um pouco do que estava agarrado às paredes interiores do frasco, com uma pequena e fina vara de bambu, que foi deixando algumas linhas visíveis no seu interior, que se viam através da parede transparente do frasco.
Um jovem monge que o observava com uma certa curiosidade, reparou então nesses riscos e teve uma inspiração: a de fazer um desenho no seu interior! Assim, uma nova arte nasceu!

Inserir uma caneta delgada especialmente concebida com uma curva na ponta através do gargalo, contar com um talentoso artista que trabalha no espaço apertado da cavidade da garrafa, capaz de gravar desenhos vivos e caligrafias na superfície interna da garrafa, torna a pintura interna das garrafas de rapé numa forma de arte única.
A técnica da "ousada pintura" dos artistas de hoje, que pintam estes pequenos frascos, não são muito diferentes da usada no início da sua invenção.
Este tipo de habilidade desenvolvida em pintar o interior das garrafas, deu origem a verdadeiras obras de arte.

O comércio dos pequenos frascos tem prosperado em todas as provincias chinesas, tornou-se hoje num importante património cultural da China.
Em qualquer loja ou Centro Comercial, podemos ver expostos, dezenas destes frasquinhos a preços acessíveis, dado que todos eles são pintados à mão, não só pelos mestres, como por alunos de escolas desta arte, agora espalhadas por toda a China.

Ele contou-me que, desde muito jovem, começara a aprender esta arte, porque hoje existem muitas escolas, mas há doze anos atrás, eram escolhidos os mais habilidosos e que tivessem inclinação para a pintura e os mestres eram muito exigentes com a perfeição dos desenhos.

Normalmente estes pequenos frascos vêm metidos em vistosas e acolchoadas caixinhas, não só para a sua protecção, como também se torna igualmente uma bonita oferta.

De tamanhos e formas diversas e devido ao seu pequeno tamanho, são fáceis de coleccionar e a sua decoração interior é tão versátil e diversificada, que é impossível conseguir uma colecção única, porque varia de gosto de artista para artista, desde desenhos de animais, pessoas, paisagens até à caligrafia, podemos encontrar um pouco de tudo nestas artísticas miniaturas.
Muitos pintores chineses são, ao mesmo tempo, poetas e calígrafos. Eles frequentemente acrescentam um poema da sua própria autoria e, invariavelmente, autenticam-no com o seu selo (nome).

Podem encontrar-se dentro destes pequenos frascos outros temas como lendas folclóricas chinesas, episódios históricos, religião e filosofia (confucionismo, taoísmo e do budismo chinês). Outros temas pintados, são puramente decorativos que indicam os bons desejos e expectativas das pessoas como o da boa sorte e felicidade, justiça, boas colheitas, saúde e longevidade.

2 comentários:
16.03.2011
Prezada Irene,
Li recentemente uma matéria sobre frasco de rapé chineses em um antigo exemplar da "Seleções do Reader's Digest" (Março/1976), intitulado "O aroma dos deuses". Achei interessante e quis pesquisar algo na Internet, deparando-me com sua página. Obrigado pelas novas informações e fotos. Curioso ver como uma peça originalmente destinada a um determinado fim adquiriu personalidade própria e o "status" de arte. Hoje em dia nem se ouve mais falar em rapé ou quem o use...
Muito obrigada Roberto pelo seu comentário. Adoro a arte/cultura chinesa, até porque vivo na China há muitos anos e há um mundo de coisas interessantes para aprender e partilhar. Abraço
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