segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

José Régio, professor/poeta

Dizem que, era assim que este professor ia de terra em terra, numa constante procura por objectos de arte, principalmente de arte popular e interessando-se por tudo o que é original, que mais tarde, doou todas essas peças à Câmara de Portalegre e que, hoje, estão expostas no Museu José Régio.

Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO, Soneto escrito em 1969, no dia de uma reunião de antigos alunos).
Tão actual em 1969, como hoje...


Foi possivelmente o único escritor em língua portuguesa a dominar com igual mestria todos os géneros literários: poeta, dramaturgo, romancista, novelista, contista, ensaísta, cronista, jornalista, crítico, autor de diário, memorialista, epistológrafo e historiador da literatura, para além de editor e diretor da influente revista literária Presença, desenhador, pintor, e grande colecionador de arte sacra e popular. Foi irmão do poeta, pintor e engenheiro Júlio Maria dos Reis Pereira.O professor Reis Pereira (1901 - 1969), chegou a Portalegre em Outubro de 1929 para ensinar Português e Francês. Em vésperas de partir, escreve a um seu amigo: - "Ai de mim! parto amanhã para Portalegre! Parece que fica lá para o coração do Alentejo" (...) (...) Que gente lá irei encontrar, Santo Deus!"
Naturalmente encontrou muito boa gente porque, em Portalegre, acabou por permanecer mais de 30 anos, desenvolvendo a par do ensino e da escrita, o interesse por objectos de arte.
É considerado, por alguns, como um dos vultos mais significativos da moderna literatura portuguesa. Recebeu, em 1961, o prémio Diário de Notícias e, postumamente, em 1970, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.
A cidade de Portalegre, comemorou em Fevereiro deste ano, os oitenta anos da sua chegada, promovendo encontros com amigos, conferências, exposições, recitais de poesia, visitas culturais e pedagógicas, para recordar este singular poeta.

José Régio e o tempo:
Não te desejo um presente qualquer,
Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.
Desejo-te tempo, para te divertires e para sorrir;
Desejo-te tempo para que os obstáculos sejam sempre superados
E muitos sucessos comemorados.
Desejo-te tempo, para planear e realizar,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,
Desejo-te tempo para te encontrares,
Desejo-te tempo, não só para passar ou vê-lo no relógio,
Desejo-te tempo, para que fiques;
Tempo para te encantares e tempo para confiares em alguém.
Desejo-te tempo para tocares as estrelas,
E tempo para crescer e amadurecer.
Desejo-te tempo para aprender e acertar,
Tempo para recomeçar, se fracassares...
Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar.
Desejo-te tempo, para ter novas esperanças e para amar.
Não faz mais sentido protelar.
Desejo-te tempo para ser feliz.
Para viver cada dia, cada hora como um presente.
Desejo-te tempo, tempo para a vida.
Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!

Como escritor, José Régio é considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa. Reflectiu em toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade. Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas ao mesmo tempo que levava a cabo uma dolorosa auto-análise, alicerçou a sua poderosa arte poética na tríplice vertente do autobiografismo, do individualismo e do psicologismo. Seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou também o seu talento para as artes plásticas ilustrando os seus livros.

CÂNTICO NEGRO
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Aqui fica o pequeno retrato de um dos meus autores preferidos, que mostra a dimensão do Homem-Artista, uma das mais lúcidas consciências literárias do seu tempo.
Possuidor de uma sensibilidade rara, deixou nos múltiplos vectores da sua actividade intelectual, as marcas inconfundíveis do seu talento criador e da firme personalidade que o caracterizava.
As suas casas de Vila do Conde e de Portalegre são hoje museus.

1 comentário:

giuseppe@cavemac.com.br disse...

Em 31 de dezembro de 2004, para recepcionar os convidados ao reveillon no Parque Hotel Pimonte, compus um pequeno poema e, impresso em papel cartolina, o coloquei em todas as mesas. As pessoas na ocasião adoraram. Hoje vejo que o povo gostou tanto que o deixa circular muito pela Internet. O titulo é “Desejo-te Tempo”. Ele não é uma obra prima, mas quem me conhece sabe que eu tenho mania de querer fazer de tudo na vida, hora do uma de engenheiro, hora de musico, hora de cantor, de pintor, de psicólogo, etc, etc, e porque não de poeta? Está certo que é tudo meio “estropiado”, mas que eu faço, faço! Brincadeira a parte, acho bom que muitos usam este pequeno poema, mas não me agrado ver alguém se apoderar de sua autoria. Eu não registrei e não o farei porque não vivo disso.
Mas, mesmo assim, obrigado por ter gostado.
Muita saúde e felicidade.

Cav. Giuseppe Tropi Somma