
Os vossos filhos
Não são vossos filhos:
São filhos e filhas
Do chamamento da própria Vida.
Vêm por vosso meio
Mas não de vós;
E apesar de estarem convosco,
Não vos pertencem.
Podeis dar-lhe o vosso amor;
Mas não os vossos pensamentos:
Porque eles têm pensamentos próprios.
Podeis acolher os seus corpos;
Mas não as suas almas:
Porque as suas almas
Habitam a casa de amanhã
Que não podeis visitar,
Nem sequer em sonhos.
Podeis esforçar-vos por ser como eles;
Mas não tenteis fazê-los como vós.
Porque a vida não vai para trás,
Nem se detém com o ontem.
Sois os arcos, e os vossos filhos
As setas vivas projectadas.
O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
E reteza-vos com o seu poder
Para que as setas
Possam voar depressa para longe.
Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
Seja de alegria.
Porque assim como Ele gosta
Da seta que voa,
Também gosta do arco que fica.
Khalil Gibran

Escolhi este poema, primeiro porque é o meu favorito e depois porque cada vez mais sentimos que os filhos se afastam dos pais, e que a nossa missão é apenas de os colocar no mundo e… rapidamente deixamos de fazer parte do mundo deles.
Este poema parece vir ao encontro das nossas dúvidas e anseios.
Este autor “aconteceu-me” como tudo me tem acontecido na vida — por destino, por acaso, por qualquer lei cuja origem e fundamento ignoro e me faz tropeçar muito de vez em quando, ao longo da minha viagem pela estrada da poesia, na beleza que em forma de verso bate no rosto do mundo.

A extrema elevação espiritual de Gibran encontram-se apenas nos eleitos que nos dão uma visão deslumbrante da vida e das coisas mais nobres entre o homem e Deus.
- “É o coração que sente a Deus e não a razão” (Pens., 278), disse arriscadamente Pascal, já que o coração tem razões que a razão desconhece e assim, apesar da indiferença e às vezes o desprezo que muitos filhos sentem pelos seus progenitores, o que mais desejamos é que os nossos filhos encontrem de facto o verdadeiro caminho do bem e consigam caminhar pela vida de cabeça erguida, será essa a nossa recompensa.
Khalil Gibran foi um pintor e poeta libanês (1883-1931) que repartiu a sua vida pela Palestina, Grécia, Itália, Espanha e França. Conviveu com muitas celebridades que lhe deram uma visão mais ampla do mundo. A sua cultura e sensibilidade fizeram dele um autor que acreditava não haver fronteiras entre o poético e o sagrado.
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